sábado, 29 de dezembro de 2012

Possíveis cárceres e improváveis liberdades - 3


Queria dizer-lhe muitas coisas e não sabia se deveria, se era justo que lhe dissesse, se teria as palavras certas e se pareceria apenas que estivesse dizendo frases baratas para conformar (e não confortar), se seriam vulgaridades. Não poderiam ser obviedades, e nem seriam aquelas comuns “é assim mesmo”, “não se preocupe tanto”, e outras expressões que se usam para conformar ou convencer alguém a alguma coisa. Tinha que ser algo concreto, que não fosse abstratamente conveniente, que a cerveja não ativasse o poder de amortecer e parecer na hora bom e que no dia seguinte fosse dolorido. Haveria de ser justo na hora, e quem sabe assim, não ser tão doloroso nem na hora e menos ainda depois.
Haviam se encontrado pela primeira vez em um lugar qualquer onde ambos estavam para beber e passar o tempo solitário de cada um. Alguma pergunta espontânea, daquelas pouco elaboradas, dirigiu os olhares de um ao outro e logo estavam acompanhados um do outro à mesa. Não sabiam se tinham chego ao final de tudo na mesma noite em que começou, ou se haveriam outros contínuos finais, mas estavam, cada um, bem em ter começado aquilo que não poderiam nomear. Os diversos finais, de fato, eram as únicas coisas de concreto em tudo o que faziam, aqueles finais que sempre finalizavam inícios inesperados e casuais, finais sendo assim tratados por não terem perspectiva de novos começos, finais interrogativos, como são os melhores.
        E escreveu-lhe sobre o que queria dizer, “Que estas palavras querem ser mais do que apenas tinta num papel, com formas arredondadas, são mais do que isso, tem aqui mais do que uma grafia cuidadosamente desenhada, isso não é apenas um pedaço rasgado de folha de caderno colegial, porque uma palavra às vezes é apenas um símbolo que não traduz o seu próprio significado, por vezes se quer dizer mais do que aquele simplório símbolo (e pode-se pensar que as palavras, muitas delas, não estão de acordo com o que se atribui à sua posse vocabular), mas enfim, que esta caligrafia monocromática sobre celulose processada que dizer muito mais do que gosto de você”.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Possíveis cárceres e improváveis liberdades - 2


Alguns latidos são ouvidos e mais que isso, o som lamurioso que atribuímos ao choro canino, mas na cozinha da casa passam estes sons despercebidos até para os que os ouvem, pois a conversa está bastante animada e encorajada pela cerveja e muitos novos causos para serem compartilhados. Há crianças brincando em segurança por vários locais da casa, nunca, expressamente, fora de suas dependências, e assim familiares e amigos se reúnem para reverem-se em intimidade e com conforto, e podendo fazer e falar o que bem entendem sem incomodarem e nem serem incomodados por ninguém. Passam-se mais alguns minutos e pode-se ouvir com mais intensidade tanto os latidos quanto os chorosos apelos do cão. O menino aproxima-se com expressão de pedido de ajuda e querendo pegar pela mão e transportar o outro até onde seja necessário, e diz:

- Tio, vem logo, abre o portão. O cachorro ficou preso do lado de fora.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Possíveis cárceres e improváveis liberdades - 1


      Estavam um de frente para o outro, à curta distância alcançável com o braço. Um deles gesticulava muito e falava também nesta quantidade, em palavras e frases lamentáveis e reclamações lamuriosas. O outro parecia insuflar o peito a cada palavra a mais que ouvia, e não dizia nada, mas respirava com gradativa ofegância, mantinha a testa franzida e os lábios apertados, e ouvia mais e mais, e então, fez o movimento com o braço em direção ao peito do oponente orador e fechando os dedos e agarrando com força, puxou, arrancou-a, e manteve-se diante dele com a mão estendida na altura dos olhos e a alma do outro sobre ela, e disse-lhe:
- Esta vendo? Olhe bem! É disso que você tem medo, é disso que você reclama. Nela que está preso quando deveria nela libertar-se!
     O desalmado ouviu aquelas palavras mirando diretamente os olhos do que as falou e depois olhou estático para aquela viscosidade amorfa e esbranquiçada com uma credulidade impossível. Nunca havia visto-a e ficou levemente perplexo, mas sem questionamentos. Fez a reação braçal de busca, de retomada de algo que está ao alcance, pegou-a e como se estivesse com uma camiseta em mãos, revestiu-se de alma.
       Depois disso foi visto vagando em muitos lugares, quase todos em que alguém pode ser visto, apenas não mais ali, onde acreditava que entendera a liberdade que necessitava e que temia que pudesse entender de novo que não a compreendeu bem.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Acaba o fim.


A (in)esperada hora se aproxima e o céu que estava com sua celestial lucidez até então, ganha negras formas nuveais, um vento quente leva e trás para todos os lados fétidos odores que muitos afirmam ser de enxofre, raios no horizonte promovem o encontro do céu e a terra. O cenário monta-se por si, ou monta-se no desesperado imaginário de muitos dos humanos habitantes nesta hora em que se aproxima a tal hora temida.
A imagem e as ações não são propriamente as cinematográficas e certamente teriam um fracasso de bilheteria se o fossem, mas de qualquer forma, há alguns suicidas e em maior número, homicidas, o que isoladamente não necessariamente comprovaria ou seria prova irrefutável de que estaríamos vivenciando o início do fim, mas começam a ocorrer os incomuns e atípicos fatos que, sim, só poderiam ocorrer nesta ocasião.
Muitos amigos e conhecidos, parentes distantes, esposas e maridos, mas principalmente, pais, filhos e irmãos, sentindo que a coisa enegrecia-se mesmo e que não haveria escapatória, o inacreditável agora é plenamente crível, correm, telefonam, dirigem ao encontro do outro irmão, pai e filho, ou conjugue, ao velho amigo para suplicar-lhe perdão, que todos têm alguma pendência familiar ou amistosa a qual fica guardada, fingidamente esquecida, mas a hora agora é oportunamente inédita para sanar todas estas mágoas rancorosas e partir para um novo mundo todos limpos e lisos, valia o esforço agora, muitos abraços e sempre muito choro. Há pessoas trancafiadas em si mesmas e outras em quartos, e há também gritos “munchianos” pelas ruas, mas não muitos destes casos. De um modo geral, até o momento, é um fim-de-mundo estranhamente resignado, só de incomuns atitudes como as do perdão.
Os relógios continuam a funcionar e todos sentem os ponteiros apocalípticos no próprio encalço, e os comportamentos gradativamente se alteram. É incrível como algumas coisas podem acontecer rápido, algumas do tipo manifestadoras, pois há agora algumas manifestações políticas formadas em alguns lugares da Europa, e ainda mais incrível é que há também cobertura jornalística, principalmente a televisiva. Tudo isso para não perderem a oportunidade de transmitir ao público geral os cartazes e faixas e cânticos “anti-imperialistas” que acusavam este (in)visível império do capital da culpa pelo trágico momento a que se chegou, e no final da reportagem, notas exemplares de civismo dizendo que numa hora dessas, haveriam aqueles bagunceiros de estar fazendo outra coisa de maior importância, sendo que a própria mídia não fazia nada diferente. O governo alemão diz estar envergonhado e que não sabe o que fazer. Nos EUA o governo admite que Fidel Castro não tem nada a ver com aquilo. Na China comunista uma grande quantidade de pessoas desorganizadas, incitadas por hackers, aderem a “sites” de internet proibidos, muitos pornográficos, arrependem-se de morte por não terem feito isso antes, e veem de súbito que existe um mundo bem maior fora do país deles, e logo lamentam que em breve se acabará. O governo não sabe o que fazer. Na África subsaariana, coitados, a informação relativa ao fim-dos-tempos não chegou, e no Japão, sim, e os japoneses receberam-na e a transformaram em piadas de três palavras sobre o mundo ocidental se acabar. Em Havana, Fidel Castro admite que os EUA não tem nada a ver com aquilo.
Agora são os próprios ponteiros dos relógios que tem no encalço uma esmagadora engrenagem Maia. Na América do sul os questionamentos metafísicos ganham corpo. Muitos ateus mantiveram seus discursos bem embasados de que nada demais haveria de acontecer, é só uma tempestade, mas alguns percebendo o grave da situação, não receberam do medo outra alternativa do que ajoelhar-se e olhar para cima pedindo desculpas e clemência com toda a fé em um agora quase material deus. Os crentes, estes todos, todos, revoltam-se contra o deus que agora não existe mais, todos muito nervosos, esbravejam contra as mentiras que lhes fizeram acreditar, que ninguém estava a se salvar, estavam cozinhando na mesma panela em que aqueles que nunca precisaram se sacrificar, aqueles que sempre se utilizaram de todos os pecados para a satisfação mundana, agora engrossavam o mesmo caldo. Os agnósticos sustentam-se por cima da carniça até os minutos finais, mas aí também não tendo glória alguma nisso, esvaecem-se em frases desconexas.
Os relógios apontam a hora certa, a hora que não deveria chegar, a maldita hora que alguém descobriu que seria a última hora, a detestável e chorosa hora, imperdoável e indesculpável hora, a apolítica e laica hora, a hora que chegou, a hora que..............passou. Os ponteiros apontam e logo depois desapontam, e apontam para a hora sucessiva, chove em alguns lugares do planeta, como em todos os dias, os desabraços começam a acontecer, frases titubeadas, algumas afirmativas, outras que interrogam, todas em torno do momento que chegou e passou e todos ali estavam, e tudo estava ainda como antes estivera. Acabou o fim-do-mundo! E os momentos finais do mundo serviram para poupar o novo-mundo de centenas e milhares de anos de discussões e conceitos e falsidades que só levar-no-iam a um novo fim.

           

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Coisas PTrescas.


Um déjà vu datado e comprovado. A mesma música martelar na cabeça (*tem que pagar pra ver, tem que ver pra crer, quem viver verá, a cara desses caras num museu de cera...) Um pesadelo revivido, ou, melhor seria, “remorrido” (de vergonha, ao menos!). Acordar no mesmo dia em que se dormiu e ter que passar por ele novamente até a hora de ir dormir, e no dia seguinte acordar sem ser o dia seguinte e experimentar os desgostos do dia anterior. Caminhar (caminhar, caminhar, caminhar...numa esteira) sem sair do lugar. Ouvir a mesma música com novos poucos arranjos (**eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades...). A célebre e infantil “volta dos que não foram”. Um hipotético mergulho ao ar livre em queda para a água e que no momento em que se atinge a superfície, a tela inverte-se, e se inicia a partir da água uma queda para o ar livre. O dia em que se liga a TV e é surpreendido com o ***Sarney de novo presidente do país após mais de duas décadas, e ri ao pensar na autopergunta, se aquilo não é um déjà vu, não foi alguma música ouvida que arremeteu a isso, se o despertador tocou e você esta naquela confusão despertadora que confunde o tempo, se não é algum mergulho para dentro dum pesadelo qualquer.  Ás vezes nos proporcionam coisas inacreditavelmente pitorescas.

*Humberto Gessinger.
**Cazuza.
***Partido dos Trabalhadores apud “Período apêndice da ditadura”.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

In-tenso.


Foi no momento em que acordou, que é na verdade aquele momento logo após o brusco acordar, o segundo posterior a abrir os olhos e a sentar na cama, praticamente simultâneo ao esfregar de olhos, quando tenta-se organizar os pensamentos e sentimentos, e ter medo que tudo se perca na memória, em que se pensa em tentar voltar ao sono, ao apalpar os lençóis e não querer acreditar e tentar lembrar do que há pouco era outra coisa, era o que tinha que ser, o que deveria ser, o esforço para que fosse novamente (ou, se fosse possível que viesse a ser), de sentir o perfume que lhe tomava conta do peito, do corpo que comprimia sua alma, do beijo que lhe cobria as entranhas, do peito que se abria à tudo, da língua que revirava seus olhos, dos olhos que lhe engoliam completamente, dos braços suados que não se afastavam, do calor da pele em suas mãos, da boca que gritava em sua orelha, do suor que lambia as pernas, da voz que gritava em sua boca, do calor que lhe arrepiava a pele, da alma que se derramava entre as pernas, foi nesse momento, exatamente nesse momento que disse:

- Queria que este acordar fosse sonho!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A decomposição “arnaldojaboriana” da macromídia opinante.



               É tarde para alguns e nem tanto para outros, mas indiscutivelmente, é infeliz a ideia de ligar a televisão naquela hora da noite, quando surge na fictícia tela a figura, mas bem que poderia ser um pesadelo, do ícone intelectual do jornalismo para a classe média-alta brasileira (e que perdoe-me o Pedro Bial, ele é mais para a média-baixa), com seu ar(tificial) de cineasta louco bradando com suas frases (nem tão bem) feitas, o ilustre e bem pago Arnaldo Jabor, munido de sua eloquência crônica, ou melhor seria, sua crônica eloquência de cronista.
            O alvo como sempre é o povo, mas a fachada da vez é a questão da mídia argentina, os cuidados que o hermano governo está tomando em relação á grande mídia, á que detém as posses, o poder e o controle de tudo que se faz jornalisticamente no país, os latifúndios da comunicação, ás elites, os que se alimentam da desgraça do povo para arrotar notícias sobre ele depois. São algumas formas de controle que não impedem que ninguém fale o que pense, que não amortiza ninguém, apenas pretendem os governantes do país vizinho que o que se diga seja verdade, seja ético, seja conforme o jornalismo deva ser, e não como tem sido. Mas o alfinete cutuca as maiores bundas, e a que se senta sobre a mídia de lá, é o grupo Clarín, e aí o grito é mais alto. O Clarín de lá é a Globo de cá, e é nisso que reside toda a ira do nosso ilustre jornalista, pois as intenções de ambas empresas é o senhorio de engenho intacto, o povo caminhando na rédea curta, e o açucarado sangue sendo extraído, através da alienação e das chibatadas no lombo da população em forma de notícia desde as primeiras horas da manhã até o momento de deitarem-se. Enfim, o objetivo é as direitas no pedestal.
            O que o cineasta-comunicador sabe é que aqui também poderia acontecer o mesmo, poderia, se o petismo guinasse bruscamente para o contrário de onde vai, á esquerda. É claro que isso está longe de acontecer, mas também é verdade que uma tendência ganha força na América latina com os há muito consolidados governos característica em vários países. Isso  ficou evidente quando, no ápice do devaneio telejornalístico, o dramaturgo traçou uma linha fascista em sentido sul-norte no subcontinente, citando o país central da crônica, a Argentina, e depois, como quem prega marcadores em um mapa, a Bolívia, salvo engano o Equador, e, não poderia ficar de fora desta, a Venezuela, e esqueceu-se do Uruguay, o que por sinal é ótimo para os “charruas” de Pepe Mujica. Sim, fascista foi a expressão que ele usou, e não que eu interpretei com intenção dele e tivera enfiado á força aqui no meio do texto, ele usou e inacreditavelmente, creio que realmente acredite nisso que disse, pois para quem come caviar, aquele que não come é perigoso. “E o Brasil olhando tudo isso, sem se opor a nada”, foi o que concluiu hitleriano artigo, talvez não exatamente com essas palavras, mas exatamente com este sentido.
            Em relação à fala ao Brasil, até poderia ser esta um feixezinho de luz em meio ás obscuras palavras, se a intenção não fosse equivocada, mas como foi, então perdeu-se isso também e foi como colocar mais sombra na escuridão. Que o Brasil tem apenas assistido os nossos irmão ameríndios em suas ações, isso ninguém pode negar, mas o que pretende o globalino funcionário é que o nosso governo encontre no fundo do baú o velho arco e flecha, e tome seu posto no braço direito dos colonizadores e avance sobre as perigosas e evoluídas comunidades andinas. Não que de certa forma o governo tupiniquim não faça isso, mas faz somente de forma econômica, o que não machuca muito, e, além disso, somos uma nação simpática e hospitaleira, violência não condiz conosco, apenas “negócios são negócios”, “não queremos mal aos nossos vizinhos” e “deixem que com os lá de cima, nós resolvemos”.
            Se ele queria, estava com uma ligeira vontade, uma inquietação apenas, em palestrar sobre “fascismo” na América do Sul, uma das opções seria o Paraguai, que vive uma situação de golpe, e aí sim poder-se-ia evocar a palavra “fascismo”, ou os diversos e sucessivos governos norte-americanos que governam a Colômbia, mas não, e é até lógico, porque ninguém propositalmente atira no próprio pé. Só que não era isso. Isso foi um comentário satélite, que estava rondando a cabecinha grisalha mesocalva e de repente foi pinçado, como se ele quisesse compactar mais o tema central, a mídia argentina e a suposta “mordaça” governista. Bem, mas nesse caso ele foi até pior. Sim, porque ele, criado e mantido pela rede globo, deveria ter a obrigação de ser expert, em censura jornalística, haja vista a pujança estrutural que esta empresa atingiu durante o período de ditadura militar aqui no país, um período no qual ninguém conseguia noticiar nada de verdade, onde nada e nem ninguém obteve êxito no ramo tendo ética, a Globo aqui, como o Clarín lá, conseguiram, e não foi com estas atitudes. Mas não conseguiu. E não conseguiu pelo simples fato de que tem medo do dia em que perderá a confortável posição de opinante nesta proprietária de opiniões do nosso país, e é esse medo que faz com que as suas opiniões se decomponham, mostrem-se putrefatas, fétidas e lúgubres, e que pareça um louco, sim, mas não no bom sentido, não no sentido intelectual, no sentido medroso mesmo.
           E depois as câmeras voltam a focar o apresentador do telejornal da virada de data que ordena aos trabalhadores que já é bastante tarde e que já deveriam estar dormindo para que no outro dia acordem e vão trabalhar sob as ordens do telejornal matinal, e este está com um leve sorriso sarcástico no rosto, como de quem acaba de presenciar uma heroica atitude irá salvar a engenhosa torre de babel midiática, e com isso, o seu cargo de repetidor de opiniões também, e a classe média-alta pode ler em seus olhos semi-apertados que já poderiam ir dormir com tranquilidade.

 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Road Darma


Mergulhou no ar para lavar
a alma,

não carregaria mais na bagagem todo
o karma,

e já na outra margem saiu deixando tudo
na água,

agora poderia retornar
á estrada,

caminhar em direção ao que fosse
o nada,

a busca por envolver-se
em aura,

como se pudesse ter isso
na cara,

como se todos pudessem tê-la
com calma,

mas a dúvida estava já
passada,

e mesmo que talvez não esteja
salva,

aquela estava definitivamente
lavada.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A primeira pedra é que machuca, as outras, só matam.


- Se há alguém aqui que saiba de algo e queira intervir, que fale agora ou cale-se para sempre!
            A voz sacerdotal proferiu isso e os olhos de quem disse levantaram e lançaram um passeante e severo olhar semicerrado, para os dois lados, com rapidez sabidamente pausada, sobre as cabeças que lotavam a pequena igreja. Havia já aturado toda a cerimônia de entrada, cumprimentos, choros, e até alguns risos, com cara de boas-vindas e boas-novas como lhe compete a um bom cordeiro de deus serviçal, e também já tinha esbravejado com impossível serenidade todos os sermões possíveis, como lhe compete muito mais.
            O casório estava em processo bem avançado, quase em vias do pecaminoso ato sexual no qual os noivos beijam-se, ali mesmo, no altar sacristão, para depois partir em rumo as profanícies da festa, depois a lua-de-mel, e naturalmente chegando ao ápice, na vida conjugal. Estava naquele momento em que o padre diz a frase e os noivos olham-se com o sorriso mais forçado de todo aquele dia de sorrisos calculistas, apertam os próprios dedos e outras partes do próprio corpo, e em frações de segundos o padre prossegue e tudo vira alívio nas barrigas e nos sorrisos, normalmente. Os pais de ambos tinham chorado abraços entre si, padrinhos cumprimentado-se, “tchauzinhos” da noiva para primas e convidadas e do noivo para os amigos, polegares em positivo distribuídos como poucas vezes se pode ver pelas ruas. Tudo como deve ser, até o crucial momento, e mesmo que sempre todos os momentos sejam cruciais, este foi mais crucial do que muitas outras crucificações.
            O padre passeia os olhos de um lado á outro novamente, como para fechar cronometricamente os dois segundos que reserva para esta etapa e é como se repetisse “Se há alguém aqui que saiba de algo e queira intervir, que fale agora ou cale-se para sempre!”, com os olhos saindo da questão e virando ao teto, expressando uma satisfação por ordem ter sido obedecida pelos inferiores, e mais este formalismo estava superado e uma nova família cristã prestes a estar estabelecida, pagando seus dízimos, é claro, porque nada e nem ninguém vivem ou sobrevivem apenas da fé neste mundo. Passaram-se os dois segundos entre a dita frase e a espera de alguma outra (dois seculares segundos para os noivos), e o procedimento seguinte estava já na ponta da teológica língua, o ar necessário para dizê-lo respirado, as mãos iniciando um movimento explicativo corporal que deve estar de acordo com o que dir-se-ia, e os olhos na direção dos olhos da noiva, já previamente questionando-os, quando todos os ouvidos ouviram, em diabólico tom vocal, surgindo como que do próprio inferno até extravasar ali, na última fileira de bancos da modesta igrejinha tutelada pelo não tão modesto sacristão, “só uma coisinha, seu padre”, e tudo paralisou-se fisicamente sob o “Óóóóóh” coletivo que ecoou nas paredes e estremeceu os vitrais da divina residência terrena.
            Todos pasmados, aos poucos começaram a cochichar, indagando uns aos outros, uns com espanto e outros com curiosidade, alguns até com cético ar profético resmungavam “hum, eu sabia que isso aí não iria longe!”, o pai da noiva enfurecido disse como quem pergunta a si mesmo e procurando alguém na plateia “Quem é o petulante...”, o que apenas os mais próximos ouviram, o pai do noivo fez exatamente a mesma coisa, só que olhando para a noiva de seu filho, que viu o gesto desconfiado do pai e contraiu ainda mais um músculo muito íntimo da anatomia humana, as duas mães desmaiavam, a noiva perigosamente quase descontraiu em demasia o seu músculo intimo junto com um suspiro incrédulo, e “Meudeusdocéu...quem é este filho-da-puta, desgraçado” foi o que pensou em voz alta o padre, e o alvoroço ganhou corpo e posteriormente até alma alguns diriam.
            O infeliz que, sem consequências e nem noção destas, acendeu o estopim daquela explosiva cerimônia, era um indivíduo que ele próprio se dava importância, um primo distante, ninguém ao certo sabia quem o havia convidado, se que alguém o fizera, daqueles que já apossam-se dos fundos de sala para não serem percebidos e nunca o são. É isto o que talvez mais intriga cause quando se pensa como e porque acorreu aquilo, um sujeito que disse o que disse com a benevolência bucólica que o mundo civilizado não compreende, com uma sinceridade tão santificada que o dito não poderia ser dito numa igreja, que desencadeie algo tão incompreensivo.
            O líder, em atividade pastoril, tenta acalmar as ovelhas e cordeiros que, em geral, pareciam perdidos e cercados por lobos, acalma, e acalma, e enfim, acalma. Olha em direção ao apedrejador e pergunta o que é que ele havia dito e se queria dizer algo de realmente importante, com olhos censurais.
- É só uma coisinha, seu padre. Sou primo da noiva, e quando eles nos visitavam no sítio, nós passeávamos no bosque, e sabe como é, né, a gente se tocava...
            O primo dizia isso enquanto todos se entreolhavam, não pareciam acreditar numa cena dessas, era das mais ridículas que todos haviam já visto na vida de cada um, o padre pensava “Mas que besta-quadrada é esta...”, e o noivo com olhos incendiais perguntava bruscamente para a pretendente, a quarenta centímetros de distanciamento um do rosto do outro, “Mas o que é isso? Pode me explicar?”. É claro que ela não poderia explicar um absurdo daqueles, e o acalmar das coisas teve que ser encenado novamente. Quando tudo acalmado estava, o sitiante parente incrivelmente prosseguiu:
- Mas é só isso mesmo, seu padre. Nunca aconteceu nada demais, só queria que soubessem, para que possam se casar com tudo “nas claras”, né, prima.
            A incredulidade na cara de quase todos era tanta, que mesmo o padre, com todo o seu erudito conhecimento ficou por segundos, boquiaberto, e provavelmente se tivesse já emendado alguma fala qualquer, de primeira, sem deixar quicar, teria salvado não só o casamento, como também tudo o mais que viria a se perder depois. Mas não o fez. Os convidados, os familiares, as mães que refaziam-se, e até os noivos, quase todos, deixavam de olhar para aquele cômico fantasma e viravam-se como em câmera lenta, á ele, que via-os virando-se do alto de seu altar. Apenas alguns amigos do noivo conversavam em sopros, “Tem coisa aí, não pense que é só isso, não...”, “Falei pra ele que ela não presta”, “Ele merece coisa melhor”, e outras frases destas, das mais invejosas, que sabe-se, só amigos masculinos tem a audácia de pensar nestas horas, e algumas amigas da noiva, que também assopravam exatamente as mesmas frases umas às outras, sem maldade alguma, “Tem coisa aí, não pense que é só isso, não...”, “Falei pra ele que ela não presta”, “Ele merece coisa melhor”. Quando os olhares então estavam já fixados na direção altariana, refez o seu aspecto de celestial tranquilidade, juntou as pontas dos dedos das mãos e manteve as palmas um pouco afastadas em frente ao rosto, e iniciou a esperada fala, com as palavras certas para por tudo de volta em seu lugar e que a cerimônia pudesse voltar á normalidade, ao menos por hora, depois os noivos que se acertassem em particular. Explicava, com toda a intenção voltada ao noivo, que todos ali eram pessoas civilizadas, não havia problema algum de tamanho maior, a reflexão sobre o ocorrido deve ser feita á luz da calma, e nem precisaria ser dito, mas foi, com muita reza e fé, e ademais, todos, e disse todos com uma ênfase de carimbo, todos ali sabem que, de verdade mesmo, não tinha nada demais em todo aquele devaneio de um pobre primo rural, que este é quem deveria se envergonhar do que tinha feito e orgulhar-se da prima que tem.
            A religiosa cerimônia conjugal parecia ter sido resgatada. Os pais de ambos os noivos já esboçavam sorrisos, tímidos é verdade, mas naquela situação poderiam ser comparados a gargalhadas das mais prazerosas, os próprios noivos trocavam olhares cúmplices, piscadelas de reservado significado, e beijinhos ao ar com sorrisos francos e olhos d’água. Os demais presentes, bem, estes vão sempre conforme seja a situação condizente, e sendo assim, também discretamente riam da situação com alegre estímulo ao retorno das atenções ao casamento, apenas aqueles das frases sopradas é que não engoliram o imbróglio romano, e, inclusive, o silêncio constrangido prévio ao sermão, onde aliás, foi neste momento em que confabularam os piores  pensamentos que foram logo cochichados, só que um deles não foi, e seria agora dito em alto e bom som para ser bem ressoado na acústica construção:
- É, mas, nós também temos as nossas histórias. Você bem sabe do que estou falando.
Foi um amigo do noivo quem soltou esta frase lançante em direção ao peito da noiva, e aí, aí não teve mais reza, nem choro e nem vela que mantivesse a ordem e a calma na bendita igrejinha. Os nervos dos familiares estavam tensos ao extremo e não suportaram racionalmente mais esta intervenção, os pais do noivo começaram a descarregar todo o nervosismo enjaulado diretamente para a bela moça que há pouco tria sido orgulhosamente a nora, os pais desta, por conseguinte, esbravejavam aos quatro cantos que todos ali estavam desonrando a família, que a menininha deles não merecia aquele tratamento, que era uma santa. Só que em meio a isso, outras vozes convidadas ganharam também a coragem e a chance de aparecer, e poucas limitaram-se a não serem ouvidas. Acusações ao noivo também começaram a aparecer em mais quantidade que sinais-de-cruzes das beatas, e da noiva, como já se esperava, soube-se publicamente de várias outras aventuras supostamente eróticas, todas, de ambos, pré-noivado, mas agora isso não tinha a mínima importância, pois eles mesmos, os noivos, já se desacatavam ferozmente lá, no local principal, envoltos em buquês e vasos de flores, toalhas brancas, taças de vinho e hóstias, e olhos desesperados do padre, e velas acesas.
 O circo pegou fogo mesmo quando as famílias, com os reforços dos padrinhos de cada lado, deixaram sensivelmente de atacarem-se verbalmente para dar o passo seguinte referente a estas situações, que é o ataque corporal, e deste momento em diante, a barbárie tomou o abençoado recinto. Confusão generalizada. Palavras de baixo calão, sopapos, pontapés, arranhões e puxões de cabelo. Um barulho ensurdecedor. Todos os presentes envolvidos.
Em meio á tudo isso, os dois noivos permaneciam em pé, em frente ao altar, em frente ao padre inclusive, atacando-se cinicamente, mas em momento algum sequer tocando-se. O padre parecia ter tido o espírito arrebatado, olhava com olhos vazios fixamente para um ponto na multidão, sem piscar, como se o rosto fosse aos poucos escorrendo-lhe abaixo arrastando as pálpebras e a boca. Os bancos da igreja iam sendo empurrados e derrubados, vasos de flores sendo quebrados, a decoração rasgada, imagens de santo caindo e despedaçando-se ao chão. A discussão dos noivos enchia-se de mais raiva gradativamente, “você é um safado, sabia que ela era minha amiga”, “ah, e você, meteu-se já com metade da cidade, sua puta”, eram algumas das referências que trocavam. De repente, e de súbito, o espírito sacerdotal que por momentos dera a impressão de ausentar-se do corpo, como se tivesse ido rapidamente, sem hora marcada, aconselhar-se sobre a situação com Ele, toma-o e preenche-o novamente, e, se é que tenha mesmo ido ter uma divina consulta, provavelmente não agiu conforme os conselhos ou não os interpretou como deveria, porque foi neste exato momento que alguns viram o enlouquecido, e talvez já descrente padre, levar as mãos á cabeça e gritar agudamente enquanto corria cego saindo pela portinha lateral e não ser mais visto ali por vários minutos.
Estava enfurecido com a noiva, seu corpo tremia de tensão e ódio, precisava descarregar aquilo de seu corpo, mas jamais encostaria nela. Entre palavras grosseiras, perguntas e auto-perguntas de “Porquês?”, levou as mãos sob a mesa do altar e arremessou-a degraus abaixo com tudo de santo que havia sobre ela. A noiva afastou-se, esquivando-se do gesto, pisou em falso com o altíssimo salto do sapato e caiu. Ele, com passos muito espaçados e rápidos, foi caminhando em direção á saída/entrada principal da igreja, em meio a confusão toda, empurrando uns, sendo empurrado por outros, nada o detinha da vontade de sair de lá, ir embora, sumir, e foi, a noiva ficou deitada de bruços, chorando, no altar. Ele já estava fora alguns metros quando ouviu de uma voz não identificada vinda de dentro da igreja “fogooo....está pegando fogo!”. As velas que estavam sobre a mesa do altar caíram sobre a toalha que também estava sobre a mesa que caiu e deitou-se encostada em um dos bancos de madeira que também estava caído, e o fogo passou das primeiras á este, quando alguém percebeu e gritou e todos viram a fumaça negra subindo frenética, e todos soltaram os colarinhos os quais seguravam, interromperam os movimentos socais de punhos cerrados, desagarraram os cabelos alheios, para irem como uma boiada que estoura a porteira vislumbrando liberdade, pisoteando quem e o que quer que lhe atravesse o caminho, sem freio possível, um deus nos acuda, salve-se quem puder, cada um por si e deus por todos, em direção á mesma saída/entrada em que o noivo a pouco saíra, e por tudo isso, não pudera voltar.
O fogo se alastrava muito rápido, incrivelmente rápido para uma construção de alvenaria, era como se a água benta funcionasse como gasolina, como se as santas imagens fossem feitas com pólvora ao invés de gesso, tudo queimava, tudo acendia, e os enormes bancos de madeira coletivos eram a lenha de uma gigantesca fornalha. Estavam todos porta à fora já quando o padre ressurgiu, mais histérico do que nunca, gritando “o que vocês fizeram com a minha igreja”, “hereges, diabólicos, pecadores...”, gritava trêmulo e com os olhos esbugalhados, queria entrar de todo o jeito. Neste mesmo instante ouviram-se também aos berros de “ela está lá dentro, salvem minha noiva” o noivo querendo, em sentido contrário a massa, entrar no recinto agora infernal.  Tiveram os dois de serem agarrados e imobilizados, arrastados para longe, onde todos ficaram observando impassíveis a vermelhidão em esfera lunar que via-se agora onde estiva até então, a comunitária igrejinha e não ouviu-se um grito sequer vindo do interior dela.
O fogo queimava, desesperavam-se os que tinham de fazê-lo, assistiam os que não tinham mais o que fazer, e ninguém culpava-se a si. Caminhões pipa e tratores que transportam câmaras esterqueiras foram improvisados para jorrar água ao incêndio, já tarde, tudo havia se perdido. A construção foi ao chão em pouco tempo, e em mais um pouco de tempo virou carvão, e em mais um pouco já nem fogo havia, como se nada mais ali fosse combustível. E veio a chuva. “Isso meu senhor, lave a alma desses infelizes, e perdoe-os, eles não sabem o que fazem” disse o cabisbaixo e encharcado sacristão, sentado a um canto, olhando os escombros. Os familiares das duas famílias ainda estavam por lá, andando de um lado á outro, sem saber o que dizer-se. Aí, se perguntados, nenhum deles saberia dizer como começara tudo, e nenhum disse mesmo quando a polícia fez as perguntas. Inclusive o tal primo da noiva, passou sem ser lembrado por eles, e voltou ao anonimato campestre da própria família.
Ah, sim! A noiva. O corpo da moça nunca foi encontrado, nenhum resquício dele, nenhuma joia que usava no dia, nada. O santo fogo vingativo da ira divina teria consumido toda a pecadora, diziam uns, ou as justas chamas luciféricas, outros. O padre, já em avançado estado de alucinações mentais, entre afirmações de que ele em pessoa havia voltado á terra para salvar os cristãos, que seu Pai o havia reenviado, deixou escapar que durante sua ausência na igreja na hora do trágico incidente, tivera visto a imagem da bela moça sendo içada aos céus de seu Pai, envolta numa aura angelical, e era por isso não a encontraram lá, e que não precisava jurar nada, pois isso não é coisa a que se preste o filho do homem.
Tudo isso me contaram quando estive em Riozinho dos Santos, muitas décadas depois do ocorrido, ou melhor dizendo, me contou,  um artesão e vendedor de artesanatos local em uma das bancas que parei para especular e ele me contou enquanto me persuadia a comprar uma imagenzinha da Virgem de Riozinho dos Santos, que morreu para que todos na cidade aprendessem inúmeras moralidades e conceitos éticos que estavam em falta por lá na época. No lugar, realmente pairava uma nuvem invisível com aspecto de morte, principalmente nos arredores das casas antigas, coloniais, ainda pertencentes às famílias tradicionais, como eram as duas envolvidas no fatídico quase casamento, e em uma delas, inclusive, o noivo viera a morrer resignado, anos antes. Alguns jovens que conheci me confidenciaram uma outra versão final ao fato, afirmando estes que na verdade, a moça tivera saído da igreja pela mesma porta lateral em que o padre pouco antes também saiu, e, envergonhada com tudo que acontecia, teria sido vista por alguns fugindo em direção a estrada que dá acesso ao lugar, quase todos que lá estavam em bom estado lúcido não se encontravam, e assim, ela teve uma ocasião facilitada para sumir. Diziam até que teria sido interpelada pelo próprio padre ao sair pela portinha, e este mais do que ninguém, teria dito á ela para fugir de lá. Enfim, boatos.
A imagem da “Virgenzinha”, vejam só, é bastante respeitada e não se deve dar ouvidos á estas histórias levianas, isso é coisa desses jovens que, hoje em dia, não respeitam mais nada,  inclusive, é tão respeitada ao ponto de ser a mais vendável da cidade, o seu principal atrativo, com um grande painel na nova igreja, e ganhou muitos adeptos fora e longe de lá, um verdadeiro fenômeno. E embora muitos dos vícios sociais não tenham alterado-se perceptivelmente desde o dia da santa, há um que foi banido, com unanime apoio dos habitantes. É a famosa e (des)esperada frase que o padre diz em cerimônias matrimoniais, e é o momento em que o padre diz a frase e os noivos olham-se com o sorriso mais forçado de todo aquele dia de sorrisos calculistas, apertam os próprios dedos e outras partes do próprio corpo, e em frações de segundos o padre prossegue e tudo vira alívio nas barrigas e nos sorrisos, normalmente. Isto, por via das incertezas, lá não se usa mais.
           

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Venerações apolíticas.


Se tivesse que usar de sinceridade pura teria que admitir que gostar daquelas populaçõezinhas, mesmo, não gostava. Pelo menos não antes de começarem a envolverem-se, e depois, bem, depois era mais um certo cuidado, um pouco de responsabilidade, quase um paternalismo o que se desenvolveu dentro dele  em relação àquela massa que, mesmo que por vezes ou para alguns fosse quase imperceptível, pôs-se em marcha, sim, como exércitos de soldados que mesmo não sabendo exatamente o porque, apenas marcham, cegamente, em um curso que passa a nítida impressão aos que não estão em concurso de que há um objetivo claro neste movimento ainda que nunca há, e neste caso, também, se há ou não, nem ele e ninguém mais o sabia.
O caso é que naquele dia, e pode não ter sido naquele dia exatamente, mas é o que lembra, que, naquele dia, havia já tomado o seu modesto desjejum, o qual não era mais que uma xícara de café e um pão francês amanteigado, ás vezes com queijo e mortadela, mas não naquele dia, e uma fatia de mamão, nunca em outros dias, mas sim naquele, ouvido e visto apenas algumas das principais notícias do dia no telejornal matinal que, por ser o telejornal matinal não pode conter as principais notícias do dia, pois este está recém começando e o telejornal serve mais para isso, distrair o acordar pré-trabalhista de todos e mandá-los, sem atraso, aos respectivos serviços, retrucou algumas das notícias como se ouvido fosse, estava já prestes a pegar a bicicleta e sair para trabalhar. Pedalaria algumas quadras que somadas seriam alguns quilômetros, poucos, uns três, e chegaria ao mercadinho em que trabalha, faz entregas, também de bicicleta, só que esta é do próprio comercio, adaptada com uma cesta grande em que cabem muitas compras, muitas mesmo, em verdade cabe até onde o entregador aguentar levar, e as faz então nos domicílios de clientes que compram ali e não tem ou não estão de automóvel, talvez não queiram carregar peso e, que mal tem isso, o estabelecimento é que oferece esta vantagem, ou simplesmente tem alguma dificuldade, como são em maior parte os que optam por esta solicitação, que são as dificuldades em função da idade já avançada.
Bem, isto é o que faz todos os dias em que trabalha, mas, naquele dia em que julga-se tenha começado a tal estranha convergência, estava prestes a tomar em mãos o seu biciclo de transporte, deixá-lo já pronto para montar, quando avistou algumas formigas que aglomeravam-se ali, na maçaneta da porta que ainda estava aberta, pois ainda retornaria para fechá-la e antes ir reescovar os dentes, que era de seu hábito fazê-lo pré e pós café-da-manhã, e olhou como se visse isso mesmo, algumas formigas aglomerando-se em uma maçaneta. É claro que considerou incomum, não a aglomeração em si, mas ela na maçaneta, que não é todo dia que se vê um grupo de formigas tomar conta de uma como se quisesse manuseá-la, e mesmo não havendo mão alguma naquele grupo usamos a palavra, manuseá-la, e foi isso que por instantes pensou, mas não deu muita atenção. Escovou os dentes novamente e ao intencionar sair definitivamente de casa viu sobre a mesinha, que não é propriamente para as refeições, mas todas são feitas nela e incluso está, então, o tal desjejum em que alguns restos, ou melhor dizendo, algumas sementes, e sementes nunca são restos de nada, são é o início de tudo, e as sementes de mamão sobre a mesinha foram vistas então cobertas delas, formigas, e de súbito olhou para a maçaneta da porta e avistou novamente aquele movimento disforme e arrepiou-lhe a espinha e o corpo até sentir o esfriecimento subindo-lhe ás bochechas, apesar de não as ver senão como formigas em sementes de mamão e as da maçaneta não lhe passava pela cabeça o motivo de lá estarem, mas não lhe trazia preocupações alguma.
É também verdade que, e este é o momento em que todos podem dizer o contrário com toda a autoridade do mundo e com a cara mais sínica que se fosse consigo perceberia já ali, que “comigo isso aí nem começaria”, “simpatia pra formiga minha vó me passou várias”, e todas essas afirmações que só são possíveis quando não são possíveis de serem aplicadas, mas, a verdade é que ninguém suspeitaria de nada, formigas são vistas a toda hora e em todos os lugares (e quem se atém a elas?), e além de tudo isso, a hora da refeição matinal é, obviamente, por ser o despertar, um momento sonolento, e somente após algumas pedaladas é que percebeu que na estrutura do veículo, correia, rodas, raios, freios e, sim, no banco, haviam mais delas, os seresinhos andando em incomum desorganização, mas ali, pendurados, agarrados, ou apenas ali, que talvez para eles não necessite este drama cinematográfico, mas ali estavam. Parou, desceu da bicicleta e bateu-se com as mãos nas calças, braços, camiseta, e tirando esta usou-a para espanar as que afixavam-se na “bike”.
 Agora sim dava já alguma importância á elas, principalmente com pensares e alguns dizeres antipáticos enquanto expelia-as, porém, o caso mesmo ainda viria a ser visto, por mais que demorasse um pouco a ser percebido, chegaria, e chegou mesmo, porque isso tudo da descrição de como possivelmente começou aquele ímpar sucedido é o que ele mesmo disse ao doutor biólogo quando o procurou buscando respostas ao que denominou, sendo questionado sobre que problema lhe afligia, que era perseguido ou algo parecido, só que sem riscos, pelas formigas.
Chegou ao trabalho e, um pouco já desgostoso com o dia, começa a perceber correições de formigas, coincidentemente em demasia, ao seu redor, onde passou, onde está passando e, acredite-se até que for possível, onde passaria. Faz uma entrega, um galão de água, arroz, extrato de tomates, alface e cebola, e formigas na bicicleta, na faixa de pedestres, na casa do cliente, no retorno, em frente ao mercado, e outra entrega em que a senhora comprou todas as formulações químicas da prateleira de produtos de limpeza doméstica e as formigas estavam, inclusive, nas embalagens, e no retorno, em frente ao mercado, correições em sua direção. É lógico e natural que qualquer ser humano em sã consciência, em uma situação semelhante, primeiramente, remeta a si próprio a dúvidas sobre a sua sanidade mental, e não comenta-se isso com ninguém, “o que podem pensar esses doentes?”, “não estou com problema algum, é só parar e ver as correições”, “desdenha assim porque não é contigo, fanfarrão”, e assim sendo, lógico e natural, procurou psicólogos e psiquiatras e foi inútil, completamente, pois, para início da conversa, e inicio mesmo, por vezes antes do início, as romarias fórmicas tomavam conta dos olhares psico-analíticos, e a resposta era que, de fato, elas o perseguiam, mesmo que sem riscos, mas estavam lá e isso era indiscutível.
E foi um deles, doutores do conhecimento sobre o pensar alheio, que indicou, mais se livrando do caso do que preocupado estando com ele, está certo que havia verificado em pessoa as perseguições, mas, isso lhe causava mais receio do que desafio profissional, e então indicou, “procure algum especialista, sei lá, ah, sim, um biólogo, é isso, um biólogo certamente saberá mais do que eu responder a esta anomalia...”, e continuou dizendo que profissionais como ele até podem, e por vezes devem, tratar de humanos em comportamentos animalescos, mas nunca o contrário.
Seguiam, seguiam, e seguiam-no. Estavam presentes na vida dele já por completo, mais até do que aqueles familiares que aparecem para almoçar sem convite ou aviso prévio algum e mesmo quando não o fazem deixam a preocupação de que podem fazê-lo e isso dá a impressão de que sempre aparecem para almoçar, e assim sendo, eram já familiarizados. Só que a veneração, esta em nada tendo que ver com famílias, era absurda, e foi sendo notada por ele a cada dia mais, e não refere-se aqui ao enorme contingente que cotidianamente brotava de forma aritmética. Tratava-se aqui de devoção em essência. Sabemos todos que as formigas são, dos seres que habitam este miserável e extraordinário planeta, os que mais prezam pela questão alimentícia, a de sua espécie, admita-se, mas também o faça-se que são exímias gerentes da previsão para os dias infortúnios e para as suas próximas gerações neste quesito, e elas, as seguidoras deste improvável seguido entregador de mercearia, não demonstravam mais esta convicta característica e ele percebeu em certo dia que algumas de suas companheiras, que já eram este adjetivo, estavam mortas pela casa ou nos caminhos mais habituais, ou a morrer nestes mesmos locais. Centenas e milhares ou centenas de milhares de formigas aglomeradas em seu redor ou perseguindo-o certamente não desenvolveriam com ele particularidades, e não era em particular com nenhuma delas o apreço que lhe tinha tomado o peito, era na massa constituinte daquele corpo metamórfico, e ele já não sabia se sentia-se seguido, perseguido, caçado ou idolatrado, sentia sem dúvidas que precisava fazer algo, que aquelas mortes lhe apunhalavam o coração, neste caso melhor caberia alguma expressão do tipo “lhe alfinetavam o coração”, porque eram várias, muitas, sabe-se lá quantas e isso em punhais seriam em excesso para qualquer mortal, estava inconformado, era adorado e adorava sem que um pudesse ser medido mais que outro.
Vestia-se em alguns dias com as roupas que considerava, veja-se que haviam desenvolvido-se observações mútuas complexas, que por algum motivo agradavam mais o seu povinho ou que lhes estimulava enfaticamente, a sabe-se lá à que, talvez nem ele e nem elas saibam. Faltava ao trabalho em dias comuns de comparecimento, como terças-feiras ou sextas, nada programado, apenas por, ao acordar, entender que ficando em casa naquele dia facilitaria todo o movimento delas e que naquele dia o movimento era tão importante que merecia esta atenção, e em outros, mesmo que considerava perceber algo incomum, como se tudo isso já não fosse, dirigia-se ao trabalho soberbamente, quando não dando olhadinhas para trás e ver em ação a sombra negra desesperada, limitada pelo tamanho das próprias pernas, ou mais ainda quando saía-lhe, sussurrado, um egocêntrico “se querem então que venham!”, e os dias passavam, o contingente, se é que isso é compatível, aumentava, e as relações entre o suposto ídolo com os que o idolatravam distanciava-se á medida em que, contraditoriamente, estreitava-se.
Tudo isso disse ao biólogo, tudo mesmo, o antes e o pós-psicólogo, e o doutor dos seres vivos tentou compreender tudo á luz da ciência, exceto quando ouviu narradas as relações psicológicas, como a das vestimentas que mais simpatizavam a todos, os dias de mais afeto e de mais despotismo, entre outras coisas não relatadas anteriormente, como barbear-se ou ficar com a barba crescida em eventuais dias, pois aí o biocientista teve que lhe ser franco e direto, dizendo “isso aí já não é de minha esfera profissional, melhor seria confessar á um psicólogo, sei que já procurou mais que um, mas ainda não havia sucedido isso que me disse quando os procurou”. Antes, verificou como qualquer cego também poderia fazer que o conviver daquele homem com as formigas era existente, sem dúvidas, e perguntou-lhe muitas perguntas, as com maior aparência investigativa tinham que ver com o início do ocorrido e, com alguma possibilidade de indução por terem sido feitas, com o fim, e querer saber sobre o final das contas isso também naturalmente se faz, mesmo que nada tenha um final propriamente, tudo transforma-se em outra coisa e então induze-se ao fim o que é uma mera transição.
Sobre como começou, ou como crê e quando começou, repetiu o que disse ao psicólogo. Com uma perspicácia mais comum ao outro do que ao biólogo que agora falava, ouviu que tentasse “pescar” lá do fundo da memória algum comportamento diferente do de sempre e, sem conseguir por mais que quisesse, voltou a falar a mesma lembrança que tinha do dia em que se percebeu uma convergência formigueira. Que se coma mamão nos momentos aurorreais não é incomum, então, deve ter outra coisa, não esconda-se o adocicado incomum que aquele mamão apresentava ao paladar conforme o devorador confessara, mas disso todos temos o direito de fazer e menos a sorte de experimentar sem sermos endeusados e nem endiabrados, assim como temos o igual direito, todos, de discutirmos com o telejornal, mesmo quando só o ouvimos sem ver, enquanto escova-se os dentes, ainda assim o doutor biólogo quis saber qual foi o retruque, já desprovido de qualquer munição científica, estava curioso e esfregando as mãos como quem ouve um causo bem contado, e o que de mais profundo lembrava-se o homem das grandes multidões de pequenos era que o retruque foi “e o que sabem esses grandes bostas sobre o povo ou sobre a fome?”, sem nem ele mesmo poder afirmar se as ditas e escritas eram exatamente estas, em ipsis literis.
Nada do concluído sobre o início pode ser conclusivo sobre o caso. Isso pouco impacto teve para o maior envolvido, o suposto ciclista entregador de mercadorias, ou melhor, o suposto líder que suponha-se entregador de mercadorias em bicicleta, porque, e isso percebeu o biólogo e todos poderiam sentir também após o inicio das mortes, o que lhe preocupava de fato depois que começaram a acontecer, eram as mortes, e aí fala-se, sem ironias, sobre o fim. A situação era extrema, a dependência mútua, e não podia admitir que as formiguinhas seguissem-no a ponto de não terem mais suprimentos para a própria sobrevivência, e no entanto, era isso que se sucedia a cada dia mais, e disse então ao doutor, disse como quem se confessa mesmo, baixou um pouco a cabeça como os culpados fazem quando confessam e também os devotos religiosos, como se a lâmina da espada já estivesse encostada na nuca e a sentisse trêmula por causa da afobada mão do carrasco que a segura, disse, que passou a dar-lhes de comer, e seguiu-se as justificativas sem freios e amedrontadas, como se precisasse de alguma para não querer ver algum a morrer de fome.  A represália que recebeu veio por um misto de decepção, inquietação, e susto boquiaberto. Explicou ao doutor que o movimento agora era assim, que dependiam dele, ele tinha que fazer algo e se não fizesse elas também não continuariam, não haveria como continuarem, mas de qualquer forma, elas é que dependiam dele.
O que aconteceu a partir daí é um tanto evasivo e talvez a complexidade do incomum ocorrido é que não deixe que se perceba mais nada de conteúdo conclusivo. Não aceitava as sugestões que lhe davam para livrar-se das formigas, e não tinha nem interesse em saber. Mas, e as situações sempre chegam ao ponto de nos soprar aos ouvidos os “mas”, a ingovernabilidade daquilo tudo estava deixando tudo ingovernável mesmo, não sabia mais em que lado da cobra estava a cabeça e não poderia, nunca pode, haver duas, o corpo se romperia e a tragédia, nestes casos, seria precedida por um momento de prazer único para cada uma ao ver a derrota no rosto da oponente, e um prazer potencializado pelo prazer de saber que a outra não terá o prazer maior, mas viria o segundo momento em que a percepção da própria tragédia amareleceria os sorrisos e ambas as faces, e antes que isso ocorra são necessárias decisões, ou, resignações.
Os mantimentos alimentícios eram fundamentais agora, pois, as gerações de formigas sucederam-se e, as que atualmente o seguiam não tinham outra motivação que não esta, mas tinham que fazê-lo, era assim, e assim mantinham-no como o ser a ser seguido e ele mantinha-se como tal. Houveram dissidentes, sim, e inclusive, pessoas próximas ao ícone original, como que por brincadeira, começaram a dar o que comer á elas e criou-se assim novas correntes de idolatria. Agora, se sentia já uma delas. Em constante suplício aos seus próximos, pedia-lhes que não as dessem os mesmos privilégios, às vezes exaltava-se porque lhe copiavam, às vezes consentia com os auxílios alheios para tirar proveito da aglomeração próxima a ele.
Definitivamente, não era mais um caso incomum, acontecia ou poderia acontecer á todos e a toda hora, nem mesmo as formigas o reconheciam mais, as apelações de aparência não o diferenciavam, os afagos ou inquisições, tudo, parecia-lhe que não tivera importância alguma, que elas procuravam outra coisa que não aquilo, e ficou como legenda para algumas apenas, que ainda faziam as venerações conforme lhes era mais conveniente e preguiçoso fazer, e ele era uma formiga que carregava produtos alheios á formigueiros alheios, outras fomes e populações outras, e via, às vezes, quando vinham á tona agora casos semelhantes em que alguma massa populacional seguia cega algum outro ícone, e dizia para si mesmo, “que formigas estúpidas”, enquanto tratava das suas. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

História desmontável de várias vidas e uma morte gradual.


Sentou-se novamente na mesa no mesmo lugar em que todos os dias é posicionada como para esperar-lhe, trouxeram-no a cerveja e o copo foi servido, como em quase todos os dias acontece à mesma hora. Apoiou os braços na mesa o queixo sobre as mãos que estavam juntas e ficou por alguns minutos admirando as pequenas bolhas que subiam do fundo do copo á espumosa superfície e as gotas transpirantes do lado externo do copo em movimento contrário, e pensou que “a vida começa aos quarenta” não é mais do que uma frase de merda para que todos trabalhem e não se arrisquem esperando sempre um momento de redenção posterior, um suposto céu na terra, uma esperança para que não percebamos que não há esperança alguma. Estava velho e com as mãos e o coração calejados de perdas, estava velho demais para mais uma foi o que eu pensou e não se referia á esperança quando pensou nisso, pois está havia sido a última que se perdera. Quando horas antes, ainda em casa, o telefone tocou e a voz que o chamava falou o que tinha de ser dito, respondeu sem ser entendido “Ainda faltava isso”, e decidiu, como se não fosse uma ação cotidiana, ir ao bar, porque não ficaria em casa sabendo que poderia não conseguir pagar pelas peças quase impossíveis de serem encontradas para a restauração da vitrola que lhe acompanhou por toda a vida e que era a única coisa que lhe restara, e consequentemente não ouvir mais seus discos e aí sim, na haveria mais nada, lhe apareceu na cabeça uma estranha convicção de que no ponto em que estava ele no traçado da linha vital, a morte ou vida da vitrola seria não coincidentemente fator determinante para sua própria vida ou morte, e se assim fosse então que assim seria, e saiu.

..........

            Sentia e sabia que estava chegando ao fim a sua boa e tranquila vida e por isso mesmo não estava triste, não conseguia pensar em grandes desejos os quais pudessem ter lhe feito mais feliz em todos os anos em que conviveu com ele. Não invejava os que lá fora andavam sem saber pra onde pelas ruas sujas e barulhentas e os automóveis lhe causavam medo e nervosismo, e por mais que ás vezes não desperdiçava uma oportunidade de um passeio solitário, o mundo do portão para fora não lhe parecia convidativo, com exceção para aquela magricela ruivo-loura que costumava aparecer e que atraía-o sem dúvidas, e ela não deixava de ir até o portão para breves flertes, mas ainda assim, adorava viver ali, naquele espaço que conhecia como ninguém, e principalmente com o carinho e o amor que lhe era recíproco e que por vezes pensava que parecia ser até de cão, por mais que soubesse que os homens não tem essa capacidade que os cães tem, mas o dele, o que recebia, parecia sim, era demasiado para ser de um simples homem, aquele homem agora tão solitário, mas parecia. Era disso que mais gostava na vida e foi isso que concluiu quando percebeu que internamente algo lhe dilacerava o estômago e os intestinos e que chegara o momento de resignar-se a um canto do quintal e esperar e ficou confuso quando não conseguia mais desembaçar os olhos, tentava arregalá-los para poder entender aquilo, mas escureciam mais, e ele estava ali, na sua frente, com o rosto frente ao seu focinho e os olhos dele estavam apavorados e deles saia muita água e não entendia o porquê, e sentiu aquele carinho da mão dele sobre a cabeça e então não viu mais nada e estava calmo.

..........

            - Você não é mais meu filho. Está morto para mim!
            Falou isso após a longa, áspera e violenta discussão com o filho homem mais novo enquanto era possível ouvir desde muitas centenas de metros da casa os gritos lamuriosos da mãe/esposa tentando desesperadamente fazê-los parar de agredirem-se, e logo não ouvia-se mais quando já desmaiada nos braços das duas filhas descansava de toda a adrenalina familiar. Não conversaram mais por muitos anos, ou conversavam por intermédio da mãe, mas já numa relação que não fazia o menor sentido ser reatada, pois não faziam falta alguma um para o outro, a não ser quando superestimavam a algum dos dois a importância do respeito e a moral familiar. O que não aceitava no filho era o que julgava ser falta de seriedade em relação a trabalho, e isso consequentemente levava a falta de caráter, que naturalmente conduzia a imoralidade, malandragem, vagabundagem, entre outros adjetivos das concepções conservadoras que o velho nunca se livraria. Porque não podia estudar, como fizeram as duas irmãs, ou trabalhar em uma ocupação de verdade, como fazia o irmão mais velho, ou estudar e trabalhar, sucessivamente, é claro, era o que se perguntava desde o dia em que o infeliz lhe falou da vontade de trabalhar com aquilo que mais lhe parecia missão para uma vida com algum sentido do que meramente trabalho. Agora o velho estava deitado e frio, imóvel, sem batimentos ou sonoridade alguma no coração e foi isso que levou seu ex-filho de volta á vê-lo, e este, chegando no momento do velório, olhou fixamente para o corpo de um desconhecido, sem emoção alguma que não fosse aquela inquietante que ronda o ar e entra pelas narinas de todos os que frequentem algum velório. Olhou e nem lembrou-se da frase que ouvira há muitos anos, no dia da discussão, a frase que inclusive deu fim á discussão, e nem precisou, porque desde antes talvez não se sentisse como tal, era um desgraçado filho desde antes, ao menos em relação ao velho, e repentinamente indagou-se se não tivesse estado morto desde a frase proferida, para em seguida também repentinamente ter tudo á luz racionalmente e poderia até abraçar e agradecer ao velho ali mesmo, ele esticado no caixão, só não o fez porque os familiares considerariam hipocrisia, cara-de-pau, e de novo falta de respeito ao pai, e exclamou-se aliviado, “Não, ele é quem livrou nós dois de sua morte sofrida, naquela hora”.

..........

O jovem, assim como todos fazem, criava e desenvolvia suas certezas e tentava defendê-las de tudo que pudesse atacá-las, e dessa forma afirmava que nunca poderia ver, assistir ao vivo, um grande concerto, um grande show, uma apresentação irreprimível musicalmente, e não era porque os ingressos seriam a preços altos demais para poder alcançá-los e nem porque aconteceriam a milhares de quilômetros de onde vivia. Chegou a esta conclusão no dia em que estava pensando no quanto àqueles discos de música clássica e aquelas sinfonias musicais lhe confortavam, alegravam, lhe jogavam vida desde os cabelos corpo á baixo, e aí parou de rir sozinho e abriu os olhos lembrando-se que todos aqueles músicos, artistas gênios, todos eles estavam já há muito tempo, mortos, e ficou muito impactado com essa óbvia constatação que á ele assemelhava-se a uma grande descoberta ruim. Quando os pensamentos esclareceram-se para o lógico, pensou que o que lhe transmitia aquela vitalidade toda não eram eles e sim as obras deles e então decidiu, naquele momento, que o que queria fazer na sua própria vida era poder sempre ouvir aquelas sonoridades transcendentais e trabalharia para que os discos, aqueles vinis eternos, sempre pudessem estar bem conservados e serem ouvidos, e de alguma forma não deixar que aquilo tudo pudesse morrer.

..........

            Ela não suportava mais aquela situação e estava decidida. Aquilo não era vida, nem conjugal e nem individual, uma mulher não deve se submeter á isso, o que queria quando começaram uma vida a dois era outra coisa completamente diferente, mas isso, isso já era o limite. Todos esses desabafos surgiam com as lágrimas quando sentava-se na cama, sozinha, aos soluços, enquanto tentava lembrar-se do que imaginava antes de se casar e como deveria ter sido e se talvez ela mesma não tivesse feito as coisas do jeito que não deveriam ser feitas. Ponderava. Relutava em admitir á decisão que não queria, mas que lhe parecia o melhor, ao menos para ela, sem dúvidas. Ele havia perdido o pai recentemente, e ela achava que ele não sabia lidar muito bem com essas questões de morte, se nem de vida o sabia. Ponderava novamente. Sabia da bondade e da sensibilidade dele, conhecia a personalidade dele como poucas pessoas, tinha ciência das suas paixões e de suas ideias, mas não tinha mais forças para continuar. Sabia que os negócios já não iam muito bem, mas de qualquer forma, ele sempre dava um jeito, e deveria continuar dando mesmo que não estivessem mais juntos. Disse á ele que “Agora você pode continuar essa sua vida sozinho, eu não quero mais isso, Oque? Se não lhe dou mais atenção é porque também tenho as minhas necessidades”, e disse com muita raiva que ficasse também com o cachorro, além das próprias tralhas e velharias, depois de ouvir dele que não precisava de nada da casa, apenas aquelas coisas dele, ela sabia bem o que era, e disse com ódio que não ficava nada de bom, aquele casamento estava morto para ela, após ouvi-lo dizer com uma exagerada apesar de amedrontada serenidade que aquilo não seria uma morte, mas sim um renascimento, sem saber que para ele a dor de nascer lhe parecia infinitamente maior do que a da morte, mesmo que após os quarenta anos ainda adorasse a vida.

..........
           
            O gerente da superloja de variedades musicais recebeu-o, abraçou-o, cumprimentou-o com muito respeito e saudosismo, ofereceu a cadeira já de modo formal e não mais amistoso, e tradicionalmente perguntou como iam as coisas, você já superou muitas dificuldades, tudo se resolverá, o importante é que esteja bem e isso vê-se que está, a saúde é o importante nesta fase em que se encontra, com todo o respeito, é claro. Conhecia-o há muitos anos e sabia que sempre que vinha estava procurando algum trabalho, ouviu ele dizer que ainda realizava alguns serviços particulares bons com colecionadores, mas que tinha a impressão, e principalmente uma impressão de bolso, que as oportunidades para isso diminuíam. Haviam alguns itens estocados há algum tempo e considerou lhe oferecer a organização de tudo. Sentiu a necessidade de estender a conversa e disse ao velho conhecido que aquilo no qual se especializara já não era útil, disse-lhe que restaurar, recuperar, ou o que quer que fosse com os discos, não teria importância atualmente, que as coisas mudam e mudaram, haveria ele também de mudar, aquilo tudo se decompôs e o novo estava no lugar. Ele ouviu, entendeu o que há tempos sabia, sentiu-se lúgubre por um momento, e noutro, que não era ele o que estava empoeirado e em decomposição. Depois, fez o serviço solicitado em poucos dias, os vinis recuperados e organizados por ele foram, aos poucos, sendo vendidos na superloja em meio aos outros formatos de memória musical, mas a partir daquele dia, a esperança, que até então lhe restava após todas as vidas vividas, morreu, se perdeu.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Anos de solidão sem literatura.


Abro um sitio internético, desses comuns de monopólio informativo, e me deparo, dentre todas aquelas manchetes pescantes  e títulos isqueiros, com um que se joga aos meus olhos drasticamente e não deixa mais que nenhum outro seja visto, me atrai e trás abaixo das garrafais letras uma imagem sorridente de Gabriel Garcia Márquez, mas eles o matavam enquanto fingiam temor, ou apenas tentavam, pois na fantasiosa realidade sempre se pode viver, mesmo que não se chegue ao fim.
Noticiava a escrita que em um país do “velho mundo”, no qual geralmente os habitantes falam demasiadamente alto para a importância da conversa e defendem com demasiado medo uma fé pouco crível, algum veículo midiático realizou uma pesquisa dessas que tentam provar ou “demonstrar” algo importante e na maioria das vezes consegue, já que demonstra que as pesquisas só servem mesmo para ocupar pesquisadores. Não vou entrar na conversa de entrar no mérito da seriedade do veículo em questão (do que realizou fantasticamente a pesquisa e do que mancheteou a que eu li), nem da relevância do conteúdo, porque veículo de comunicação sério mesmo não se presta á estas pesquisas e conteúdo relevante não precisa dessa submissão, e se por acaso houver algum caso assim legítimo, então são os pesquisados quem não merecem a pesquisa. Escrevo isso porque de fato não sei se fiquei mais boquiaberto com a notícia da pesquisa ou com a pesquisa e seu resultado em si. Aceito as críticas de quem diga “Mas você fica lendo isso...”, e também sei que nestes casos, o mais racional é parar quando se lê “Pesquisa...”, só que a imagem do Gabo com seu grande sorriso sub-bigodal me fez terminar de ler o título e perceber que o embate seria no esfera literária e logo prossegui ao texto, e tinha de fazer isso.
““Cem anos de solidão” é o livro mais difícil de ser lido” era o título da matéria seguida do tradicional subtítulo (necessário porque os títulos não são bons), que ajudava a explicar o superior, e dizia que o livro do colombiano Garcia Márquez encabeçava a lista das dez obras mais difíceis de serem lidas até o fim para leitores italianos. Dos outros que constavam na mesma lista lembro-me apenas de uma obra do Umberto Eco, por ser compatriota dos limitados pesquisados, pois oque importava mesmo era que tratávamos do grande escritor latino-americano e da baixa fertilidade de fantasia no campo da realidade estrangeira à nossa grande pátria. Vejamos que, não é a questão de ser a obra em questão, difícil de ser lida, apenas. Não. A tal pesquisa “aponta” que é a obra a mais impossível (sim, sei do erro de concordância, se é impossível é impossível, e não há mais ou menos impossível), a menos possível entre as dez menos possíveis de serem iniciadas e terminadas em leitura, portanto, a mais impossível de ser lida do inicio ao fim em um ranking das dez mais. Em resumo, o conteúdo da notícia da pesquisa é esse.
Não é fazer apologia ou defender um gênero literário e/ou um gosto literário preferível, pois para isso pode-se ser mais direto e menos educado, mas fiquei algum tempo imaginando como é ser um leitor quando a leitura nos possa parecer absurda. A arte não imita a vida, ela leva aos olhos atentos oque é a vida que não é percebida, e, quando possível, tenta dizer “quão fantástica é a realidade!”. É disso que se trata quando uma nação que já explorou “deus e o mundo” (literalmente!) se vê em uma invencível crise econômica, mas não se vê em uma superável crise humanitária.
Realmente, a vida na américa das línguas latinas e dos hábitos indígenas tem mais paixão, mas também mais dor. Tem mais fé, e ao lado o mais profano. Tem os generais que sobem à custa do sangue do povo e que depois caem no próprio sangue, tem o trabalho que liberta da miséria que é o mesmo que a miséria nele escraviza, tem eu-te-amos por um beijo e eu-te-matos por outro. Bandeiras, santos, carnavais, gols, espíritos. E tem famílias que vagam e vivem isso tudo como se fosse nada e outras coisas como se fosse tudo. Fantasiosamente, também tem.
Poder-se-ia escrever que o grande Garcia Márquez escrevendo leva qualquer um ao fim de qualquer obra carregado na ponta da caneta ou em teclas saltitantes, mas aí, precisaríamos apenas essa frase para demonstrar que a tal pesquisa não demonstra outra coisa que não seja que os pesquisados merecem a pesquisa a qual foram submetidos, e faltaria a fantasia. Na realidade crua isso já seria o fim, mas no realismo fantástico sempre se pode viver mais, mesmo que não chegue ao fim.

sábado, 17 de novembro de 2012

Redenções noturnas.


Ecoam, refletem e rebatem, ou apenas surgem em algum ponto indefinível que ao que parece o mais lógico seja pelo ouvido e adentram ecoando, só que apenas uma vez cada uma delas é ouvida ou sentida, mas assim mesmo parecem ecoar, e o mais lógico em realidade não existe, pois não é lógico que aconteça, que ecoem, que ao menos sejam ouvidas. Há mãos que esfregam a cabeça e os cabelos são agarrados enquanto uma lembrança de poucos segundos atrás torna ainda mais duvidosa a existência sonora da frase supostamente ouvida. Agora, na tentativa de esclarecer a mente, No se puede, la vida no vale nada, no se puede... parece saturada de sarcasmo, satírica, um riso verbal que anosa as medrosas hipóteses que se esforçam em provar que não é nada e que tudo passará, que é imaginação, como se não fosse este próprio o motivo do inseguro nervosismo, que é imaginação.
     Sabe que ninguém o entenderá, que sua angústia não é gratuita, que a vida de merda que as pessoas levam é o que incomoda e receia aquilo com asco e sabe que a ciência e a psicologia, com suas teorias, hipóteses e dedos apontados, só podem potencializar a angustia. Sabe que é mais uma noite de guerra, como várias outras passadas e superadas, como todas nos últimos dez ou quinze dias. Sabe que mais uma dose não resolverá nada, se todas as anteriores já não resolveram, nem perambular pela casa, nem ler ou escrever, que isso é praticamente impossível perante a dispersão raivosa a que se encontra intelectualmente. E já é tarde (ou cedo), a noite passa em horas que não passam.
  A madrugada é o período propício aos acontecimentos menos críveis e também por isso é ela que oferece, ela desafia, ela é que instiga com a sua falsa serenidade e com o privilégio de esconder-se atrás das incertezas que o dia carrega posteriormente. É madrugada outra vez e os olhos estão desesperadamente arregalados novamente, e guiam a cabeça para todos os cantos do teto do quarto a meia luz, sem coordenação nem sequência organizada á procura de uma impossível origem para o hei, hei, siiit! que ameaça os ouvidos, e tremem junto com o corpo que transpira quando Elas tem de ir embora, você sabe, não existem, tem de ir embora! surge e foge de canto a canto, nas paredes ou sob a porta. Para de procurar e recupera a respiração, aperta as laterais do crânio que lhe aparenta ao tato estar enorme. Senta na cama, esfrega os olhos com as palmas das mãos, levanta e caminha até em frente ao espelho onde se vê e vê que suas formas cefálicas estão normais, os olhos avermelhados e pulsantes, a ponto de explodirem, seguros nas cavidades por aquelas teias de artérias vermelhas, vê uma caveira com olhos fumegantes em seu reflexo, e lava o rosto com muita calma, como para aproveitar ao máximo aquilo, a água escorrendo pescoço á baixo, aliviando tudo por um momento antes que tivesse que retornar á tarefa de tentar dormir e com receio de tudo o que poderia acontecer novamente. – É isso mesmo, elas não existem, elas tem de ir embora!, fala olhando os próprios olhos para em seguida pensar que se ouviu esta última afirmação que lhe fugia aos olhos pelas paredes e pelos cantos do teto a qual acabava de fazer coro em voz alta na frente do espelho, então ele mesmo já dá importância ao que tem que não admitir, aquilo tudo deveria acabar ou não aguentaria mais, fraqueja suspirando, retorna á cama e deita-se com uma umidade nos olhos que aglomera-se em gotas, e algumas rolam ao travesseiro. O sono castiga as pálpebras,...mélancolie...emerge com entonação amiga e compreensiva, um sopro próximo ao pescoço que de imediato conforta, e no intervalo de uma respirada segue Isso não é real!, resgatando novamente o transtorno, Nós temos que desaparecer da sua cabeça!, está insuportável, quer gritar e sabe que não vai adiantar, elas não irão desaparecer com isso, se va a estallar, se va a estallar..., é oque acusa uma delas como se quisesse presenciar um estilhaçamento cerebral saboreando a participação no feito, e uma melodia de violinos e pianos com volume que alterna momentos máximos com posteriores suavidades que volta a aumentar e o ritmo também acelera junto com o volume, travesseiros são apertados com dedos que matariam, são arremessados em direção aos fantasmas sonoros, hei, siit...não é assim que se faz..., é o que lhe soa desafiadoramente agora que está sentado na cama com as mãos apertadas na nuca e os cotovelos encostados frente aos olhos e afastam-se para deixar fluir um grito de suplicante autoridade, - Eu sei como fazer, isso não é real, vão embora...!, e as mão soltam a nuca para encoleirar o pescoço pelo qual em seu interior a única coisa que pode passar agora passa com exprimida dor, - Aaaaaaaaaaahhh...
Finda-se o grito colérico e é possível ouvir de algum lugar ao longe um cantar de galo que entra no quarto por frestas junto a lâminas reluzentes e depois o silêncio. Um corpo fetalmente encolhido no centro da cama não ouve o seguido cantar auroreal, as pálpebras abraçam e acalentam os olhos, as mãos estão relaxadas, e tudo levita na ausência de som.