quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A primeira pedra é que machuca, as outras, só matam.


- Se há alguém aqui que saiba de algo e queira intervir, que fale agora ou cale-se para sempre!
            A voz sacerdotal proferiu isso e os olhos de quem disse levantaram e lançaram um passeante e severo olhar semicerrado, para os dois lados, com rapidez sabidamente pausada, sobre as cabeças que lotavam a pequena igreja. Havia já aturado toda a cerimônia de entrada, cumprimentos, choros, e até alguns risos, com cara de boas-vindas e boas-novas como lhe compete a um bom cordeiro de deus serviçal, e também já tinha esbravejado com impossível serenidade todos os sermões possíveis, como lhe compete muito mais.
            O casório estava em processo bem avançado, quase em vias do pecaminoso ato sexual no qual os noivos beijam-se, ali mesmo, no altar sacristão, para depois partir em rumo as profanícies da festa, depois a lua-de-mel, e naturalmente chegando ao ápice, na vida conjugal. Estava naquele momento em que o padre diz a frase e os noivos olham-se com o sorriso mais forçado de todo aquele dia de sorrisos calculistas, apertam os próprios dedos e outras partes do próprio corpo, e em frações de segundos o padre prossegue e tudo vira alívio nas barrigas e nos sorrisos, normalmente. Os pais de ambos tinham chorado abraços entre si, padrinhos cumprimentado-se, “tchauzinhos” da noiva para primas e convidadas e do noivo para os amigos, polegares em positivo distribuídos como poucas vezes se pode ver pelas ruas. Tudo como deve ser, até o crucial momento, e mesmo que sempre todos os momentos sejam cruciais, este foi mais crucial do que muitas outras crucificações.
            O padre passeia os olhos de um lado á outro novamente, como para fechar cronometricamente os dois segundos que reserva para esta etapa e é como se repetisse “Se há alguém aqui que saiba de algo e queira intervir, que fale agora ou cale-se para sempre!”, com os olhos saindo da questão e virando ao teto, expressando uma satisfação por ordem ter sido obedecida pelos inferiores, e mais este formalismo estava superado e uma nova família cristã prestes a estar estabelecida, pagando seus dízimos, é claro, porque nada e nem ninguém vivem ou sobrevivem apenas da fé neste mundo. Passaram-se os dois segundos entre a dita frase e a espera de alguma outra (dois seculares segundos para os noivos), e o procedimento seguinte estava já na ponta da teológica língua, o ar necessário para dizê-lo respirado, as mãos iniciando um movimento explicativo corporal que deve estar de acordo com o que dir-se-ia, e os olhos na direção dos olhos da noiva, já previamente questionando-os, quando todos os ouvidos ouviram, em diabólico tom vocal, surgindo como que do próprio inferno até extravasar ali, na última fileira de bancos da modesta igrejinha tutelada pelo não tão modesto sacristão, “só uma coisinha, seu padre”, e tudo paralisou-se fisicamente sob o “Óóóóóh” coletivo que ecoou nas paredes e estremeceu os vitrais da divina residência terrena.
            Todos pasmados, aos poucos começaram a cochichar, indagando uns aos outros, uns com espanto e outros com curiosidade, alguns até com cético ar profético resmungavam “hum, eu sabia que isso aí não iria longe!”, o pai da noiva enfurecido disse como quem pergunta a si mesmo e procurando alguém na plateia “Quem é o petulante...”, o que apenas os mais próximos ouviram, o pai do noivo fez exatamente a mesma coisa, só que olhando para a noiva de seu filho, que viu o gesto desconfiado do pai e contraiu ainda mais um músculo muito íntimo da anatomia humana, as duas mães desmaiavam, a noiva perigosamente quase descontraiu em demasia o seu músculo intimo junto com um suspiro incrédulo, e “Meudeusdocéu...quem é este filho-da-puta, desgraçado” foi o que pensou em voz alta o padre, e o alvoroço ganhou corpo e posteriormente até alma alguns diriam.
            O infeliz que, sem consequências e nem noção destas, acendeu o estopim daquela explosiva cerimônia, era um indivíduo que ele próprio se dava importância, um primo distante, ninguém ao certo sabia quem o havia convidado, se que alguém o fizera, daqueles que já apossam-se dos fundos de sala para não serem percebidos e nunca o são. É isto o que talvez mais intriga cause quando se pensa como e porque acorreu aquilo, um sujeito que disse o que disse com a benevolência bucólica que o mundo civilizado não compreende, com uma sinceridade tão santificada que o dito não poderia ser dito numa igreja, que desencadeie algo tão incompreensivo.
            O líder, em atividade pastoril, tenta acalmar as ovelhas e cordeiros que, em geral, pareciam perdidos e cercados por lobos, acalma, e acalma, e enfim, acalma. Olha em direção ao apedrejador e pergunta o que é que ele havia dito e se queria dizer algo de realmente importante, com olhos censurais.
- É só uma coisinha, seu padre. Sou primo da noiva, e quando eles nos visitavam no sítio, nós passeávamos no bosque, e sabe como é, né, a gente se tocava...
            O primo dizia isso enquanto todos se entreolhavam, não pareciam acreditar numa cena dessas, era das mais ridículas que todos haviam já visto na vida de cada um, o padre pensava “Mas que besta-quadrada é esta...”, e o noivo com olhos incendiais perguntava bruscamente para a pretendente, a quarenta centímetros de distanciamento um do rosto do outro, “Mas o que é isso? Pode me explicar?”. É claro que ela não poderia explicar um absurdo daqueles, e o acalmar das coisas teve que ser encenado novamente. Quando tudo acalmado estava, o sitiante parente incrivelmente prosseguiu:
- Mas é só isso mesmo, seu padre. Nunca aconteceu nada demais, só queria que soubessem, para que possam se casar com tudo “nas claras”, né, prima.
            A incredulidade na cara de quase todos era tanta, que mesmo o padre, com todo o seu erudito conhecimento ficou por segundos, boquiaberto, e provavelmente se tivesse já emendado alguma fala qualquer, de primeira, sem deixar quicar, teria salvado não só o casamento, como também tudo o mais que viria a se perder depois. Mas não o fez. Os convidados, os familiares, as mães que refaziam-se, e até os noivos, quase todos, deixavam de olhar para aquele cômico fantasma e viravam-se como em câmera lenta, á ele, que via-os virando-se do alto de seu altar. Apenas alguns amigos do noivo conversavam em sopros, “Tem coisa aí, não pense que é só isso, não...”, “Falei pra ele que ela não presta”, “Ele merece coisa melhor”, e outras frases destas, das mais invejosas, que sabe-se, só amigos masculinos tem a audácia de pensar nestas horas, e algumas amigas da noiva, que também assopravam exatamente as mesmas frases umas às outras, sem maldade alguma, “Tem coisa aí, não pense que é só isso, não...”, “Falei pra ele que ela não presta”, “Ele merece coisa melhor”. Quando os olhares então estavam já fixados na direção altariana, refez o seu aspecto de celestial tranquilidade, juntou as pontas dos dedos das mãos e manteve as palmas um pouco afastadas em frente ao rosto, e iniciou a esperada fala, com as palavras certas para por tudo de volta em seu lugar e que a cerimônia pudesse voltar á normalidade, ao menos por hora, depois os noivos que se acertassem em particular. Explicava, com toda a intenção voltada ao noivo, que todos ali eram pessoas civilizadas, não havia problema algum de tamanho maior, a reflexão sobre o ocorrido deve ser feita á luz da calma, e nem precisaria ser dito, mas foi, com muita reza e fé, e ademais, todos, e disse todos com uma ênfase de carimbo, todos ali sabem que, de verdade mesmo, não tinha nada demais em todo aquele devaneio de um pobre primo rural, que este é quem deveria se envergonhar do que tinha feito e orgulhar-se da prima que tem.
            A religiosa cerimônia conjugal parecia ter sido resgatada. Os pais de ambos os noivos já esboçavam sorrisos, tímidos é verdade, mas naquela situação poderiam ser comparados a gargalhadas das mais prazerosas, os próprios noivos trocavam olhares cúmplices, piscadelas de reservado significado, e beijinhos ao ar com sorrisos francos e olhos d’água. Os demais presentes, bem, estes vão sempre conforme seja a situação condizente, e sendo assim, também discretamente riam da situação com alegre estímulo ao retorno das atenções ao casamento, apenas aqueles das frases sopradas é que não engoliram o imbróglio romano, e, inclusive, o silêncio constrangido prévio ao sermão, onde aliás, foi neste momento em que confabularam os piores  pensamentos que foram logo cochichados, só que um deles não foi, e seria agora dito em alto e bom som para ser bem ressoado na acústica construção:
- É, mas, nós também temos as nossas histórias. Você bem sabe do que estou falando.
Foi um amigo do noivo quem soltou esta frase lançante em direção ao peito da noiva, e aí, aí não teve mais reza, nem choro e nem vela que mantivesse a ordem e a calma na bendita igrejinha. Os nervos dos familiares estavam tensos ao extremo e não suportaram racionalmente mais esta intervenção, os pais do noivo começaram a descarregar todo o nervosismo enjaulado diretamente para a bela moça que há pouco tria sido orgulhosamente a nora, os pais desta, por conseguinte, esbravejavam aos quatro cantos que todos ali estavam desonrando a família, que a menininha deles não merecia aquele tratamento, que era uma santa. Só que em meio a isso, outras vozes convidadas ganharam também a coragem e a chance de aparecer, e poucas limitaram-se a não serem ouvidas. Acusações ao noivo também começaram a aparecer em mais quantidade que sinais-de-cruzes das beatas, e da noiva, como já se esperava, soube-se publicamente de várias outras aventuras supostamente eróticas, todas, de ambos, pré-noivado, mas agora isso não tinha a mínima importância, pois eles mesmos, os noivos, já se desacatavam ferozmente lá, no local principal, envoltos em buquês e vasos de flores, toalhas brancas, taças de vinho e hóstias, e olhos desesperados do padre, e velas acesas.
 O circo pegou fogo mesmo quando as famílias, com os reforços dos padrinhos de cada lado, deixaram sensivelmente de atacarem-se verbalmente para dar o passo seguinte referente a estas situações, que é o ataque corporal, e deste momento em diante, a barbárie tomou o abençoado recinto. Confusão generalizada. Palavras de baixo calão, sopapos, pontapés, arranhões e puxões de cabelo. Um barulho ensurdecedor. Todos os presentes envolvidos.
Em meio á tudo isso, os dois noivos permaneciam em pé, em frente ao altar, em frente ao padre inclusive, atacando-se cinicamente, mas em momento algum sequer tocando-se. O padre parecia ter tido o espírito arrebatado, olhava com olhos vazios fixamente para um ponto na multidão, sem piscar, como se o rosto fosse aos poucos escorrendo-lhe abaixo arrastando as pálpebras e a boca. Os bancos da igreja iam sendo empurrados e derrubados, vasos de flores sendo quebrados, a decoração rasgada, imagens de santo caindo e despedaçando-se ao chão. A discussão dos noivos enchia-se de mais raiva gradativamente, “você é um safado, sabia que ela era minha amiga”, “ah, e você, meteu-se já com metade da cidade, sua puta”, eram algumas das referências que trocavam. De repente, e de súbito, o espírito sacerdotal que por momentos dera a impressão de ausentar-se do corpo, como se tivesse ido rapidamente, sem hora marcada, aconselhar-se sobre a situação com Ele, toma-o e preenche-o novamente, e, se é que tenha mesmo ido ter uma divina consulta, provavelmente não agiu conforme os conselhos ou não os interpretou como deveria, porque foi neste exato momento que alguns viram o enlouquecido, e talvez já descrente padre, levar as mãos á cabeça e gritar agudamente enquanto corria cego saindo pela portinha lateral e não ser mais visto ali por vários minutos.
Estava enfurecido com a noiva, seu corpo tremia de tensão e ódio, precisava descarregar aquilo de seu corpo, mas jamais encostaria nela. Entre palavras grosseiras, perguntas e auto-perguntas de “Porquês?”, levou as mãos sob a mesa do altar e arremessou-a degraus abaixo com tudo de santo que havia sobre ela. A noiva afastou-se, esquivando-se do gesto, pisou em falso com o altíssimo salto do sapato e caiu. Ele, com passos muito espaçados e rápidos, foi caminhando em direção á saída/entrada principal da igreja, em meio a confusão toda, empurrando uns, sendo empurrado por outros, nada o detinha da vontade de sair de lá, ir embora, sumir, e foi, a noiva ficou deitada de bruços, chorando, no altar. Ele já estava fora alguns metros quando ouviu de uma voz não identificada vinda de dentro da igreja “fogooo....está pegando fogo!”. As velas que estavam sobre a mesa do altar caíram sobre a toalha que também estava sobre a mesa que caiu e deitou-se encostada em um dos bancos de madeira que também estava caído, e o fogo passou das primeiras á este, quando alguém percebeu e gritou e todos viram a fumaça negra subindo frenética, e todos soltaram os colarinhos os quais seguravam, interromperam os movimentos socais de punhos cerrados, desagarraram os cabelos alheios, para irem como uma boiada que estoura a porteira vislumbrando liberdade, pisoteando quem e o que quer que lhe atravesse o caminho, sem freio possível, um deus nos acuda, salve-se quem puder, cada um por si e deus por todos, em direção á mesma saída/entrada em que o noivo a pouco saíra, e por tudo isso, não pudera voltar.
O fogo se alastrava muito rápido, incrivelmente rápido para uma construção de alvenaria, era como se a água benta funcionasse como gasolina, como se as santas imagens fossem feitas com pólvora ao invés de gesso, tudo queimava, tudo acendia, e os enormes bancos de madeira coletivos eram a lenha de uma gigantesca fornalha. Estavam todos porta à fora já quando o padre ressurgiu, mais histérico do que nunca, gritando “o que vocês fizeram com a minha igreja”, “hereges, diabólicos, pecadores...”, gritava trêmulo e com os olhos esbugalhados, queria entrar de todo o jeito. Neste mesmo instante ouviram-se também aos berros de “ela está lá dentro, salvem minha noiva” o noivo querendo, em sentido contrário a massa, entrar no recinto agora infernal.  Tiveram os dois de serem agarrados e imobilizados, arrastados para longe, onde todos ficaram observando impassíveis a vermelhidão em esfera lunar que via-se agora onde estiva até então, a comunitária igrejinha e não ouviu-se um grito sequer vindo do interior dela.
O fogo queimava, desesperavam-se os que tinham de fazê-lo, assistiam os que não tinham mais o que fazer, e ninguém culpava-se a si. Caminhões pipa e tratores que transportam câmaras esterqueiras foram improvisados para jorrar água ao incêndio, já tarde, tudo havia se perdido. A construção foi ao chão em pouco tempo, e em mais um pouco de tempo virou carvão, e em mais um pouco já nem fogo havia, como se nada mais ali fosse combustível. E veio a chuva. “Isso meu senhor, lave a alma desses infelizes, e perdoe-os, eles não sabem o que fazem” disse o cabisbaixo e encharcado sacristão, sentado a um canto, olhando os escombros. Os familiares das duas famílias ainda estavam por lá, andando de um lado á outro, sem saber o que dizer-se. Aí, se perguntados, nenhum deles saberia dizer como começara tudo, e nenhum disse mesmo quando a polícia fez as perguntas. Inclusive o tal primo da noiva, passou sem ser lembrado por eles, e voltou ao anonimato campestre da própria família.
Ah, sim! A noiva. O corpo da moça nunca foi encontrado, nenhum resquício dele, nenhuma joia que usava no dia, nada. O santo fogo vingativo da ira divina teria consumido toda a pecadora, diziam uns, ou as justas chamas luciféricas, outros. O padre, já em avançado estado de alucinações mentais, entre afirmações de que ele em pessoa havia voltado á terra para salvar os cristãos, que seu Pai o havia reenviado, deixou escapar que durante sua ausência na igreja na hora do trágico incidente, tivera visto a imagem da bela moça sendo içada aos céus de seu Pai, envolta numa aura angelical, e era por isso não a encontraram lá, e que não precisava jurar nada, pois isso não é coisa a que se preste o filho do homem.
Tudo isso me contaram quando estive em Riozinho dos Santos, muitas décadas depois do ocorrido, ou melhor dizendo, me contou,  um artesão e vendedor de artesanatos local em uma das bancas que parei para especular e ele me contou enquanto me persuadia a comprar uma imagenzinha da Virgem de Riozinho dos Santos, que morreu para que todos na cidade aprendessem inúmeras moralidades e conceitos éticos que estavam em falta por lá na época. No lugar, realmente pairava uma nuvem invisível com aspecto de morte, principalmente nos arredores das casas antigas, coloniais, ainda pertencentes às famílias tradicionais, como eram as duas envolvidas no fatídico quase casamento, e em uma delas, inclusive, o noivo viera a morrer resignado, anos antes. Alguns jovens que conheci me confidenciaram uma outra versão final ao fato, afirmando estes que na verdade, a moça tivera saído da igreja pela mesma porta lateral em que o padre pouco antes também saiu, e, envergonhada com tudo que acontecia, teria sido vista por alguns fugindo em direção a estrada que dá acesso ao lugar, quase todos que lá estavam em bom estado lúcido não se encontravam, e assim, ela teve uma ocasião facilitada para sumir. Diziam até que teria sido interpelada pelo próprio padre ao sair pela portinha, e este mais do que ninguém, teria dito á ela para fugir de lá. Enfim, boatos.
A imagem da “Virgenzinha”, vejam só, é bastante respeitada e não se deve dar ouvidos á estas histórias levianas, isso é coisa desses jovens que, hoje em dia, não respeitam mais nada,  inclusive, é tão respeitada ao ponto de ser a mais vendável da cidade, o seu principal atrativo, com um grande painel na nova igreja, e ganhou muitos adeptos fora e longe de lá, um verdadeiro fenômeno. E embora muitos dos vícios sociais não tenham alterado-se perceptivelmente desde o dia da santa, há um que foi banido, com unanime apoio dos habitantes. É a famosa e (des)esperada frase que o padre diz em cerimônias matrimoniais, e é o momento em que o padre diz a frase e os noivos olham-se com o sorriso mais forçado de todo aquele dia de sorrisos calculistas, apertam os próprios dedos e outras partes do próprio corpo, e em frações de segundos o padre prossegue e tudo vira alívio nas barrigas e nos sorrisos, normalmente. Isto, por via das incertezas, lá não se usa mais.
           

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