segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Amores quando



A caneta “bic” fazia um vai-e-vêm no ar presa entre o dedo médio e o indicador da mão esquerda e isso parecia ser o único movimento que realizava, como se tivessem dado corda ou ligado um botãozinho que permitia apenas animar esta mecânica força, nos últimos cinco minutos em que o restante do corpo paralisara-se solto sobre a cadeira, levemente inclinado para frente escorado pelo cotovelo do braço direito á mesinha laboral e a cabeça pesadamente acomodada no dorso da mão deste mesmo braço, e os olhos semicerrados fixos, como fora-de-foco, olhos que sonham, demasiadamente úmidos, e poderia ficar ali, assim, por mais cinco minutos ou cinco vidas, olhando-a (desejando-a! legende-se), pois não imaginava e nem podia imaginar nada mais admirável do que ela, e se pudesse imaginar não queria.
O que não queria mais mesmo, e já havia tentado controlar-se por inúmeras vezes, era aquela espécie de acordar desta situação e retomar alguma função inacabada, como quando lhe cai a caneta da mão e a impressão de que os outros, todos que ali sempre estão olham, não diretamente aos seus olhos, mas para o rosto como um todo, e parece-lhe que riem um pouco, bem pouco, apenas uma sutil franzida de canto de boca mas que significa uma estrondosa gargalhada interna, ou quando toca repentinamente o telefone de seu ramal e é bem verdade que sempre é assim que tocam os telefones, sem aviso algum, parecendo proposital para ressuscitar à vida o distraído mais próximo e se tratando de uma sala em que há vários ramais e que os respectivos responsáveis por cada um podem ver-se, ocorrer que de fato seja de propósito a chamada transcendental não seria incomum, e ela olha e sorri levemente mostrando alguns dentes, menos mal que é simpático o sorriso mas não menos constrangedor que o dos outros.
- Oi, pronto!
- Oi...rsrss...o chefe, o chefe pediu se o relatório está pronto.
- Ah, sim, está! Está sim.
- Ta bom....leve pra ele então, ainda hoje disse que quer ver.
- Tudo bem, vou levar.
- Ok, mas leva mesmo hein...beijinho.
- Sim, claro. Aliás, por falar em “beijinho”, estamos no final do expediente e poderíamos então (sim, sei, depois que eu levar o relatório ao chefe), ir tomar um chopp, uma cervejinha, sabe, pra descontrair e conversarmos. Por vezes faço isso, mas se você vier será muito melhor, e sei que temos muito que conversar, sei disso, você também sabe, só que talvez não o saiba mesmo, entende? Mas posso te mostrar que temos e que somos afins (e o que teria que ver o “por falar em beijinho” com sair pra conversar e beber um pouco, caralho!). Bem, pode parecer estranho, mas não será. Você vai gostar, eu juro, eu prometo.....
As línguas encontram-se convidadas pelos lábios e também protegidas por eles. Há gosto de álcool (e isso não provoca a atenção de nenhum, isso realmente não importa, isso pode ter sido um dos meios para este fim), mas o gosto dela é que importa, da língua dela e da boca, e aquele calor ainda maior do que o do corpo que se lhe encosta e que as mãos sentem e querem senti-lo todo. Ah, como não importam as lingeries (e de que cor mesmo? isso só é relevante quando não há o desejo ou quando este tem que ser despertado), se o desejo é tão grande que não queremos nada entre os corpos. A boca, as línguas, essas sim, a língua e os lábios experimentam aquela pele salgada e quase toda a pele do corpo dela é experimentada, postergando o encontro com os seios, sim, estes devem ser lambidos e chupados e tudo o mais em um momento especial, e quando este momento chega (já com certa pressa incontida), a língua, a boca, o seio endurecido, e o prazer é o mesmo para os dois e poderia ser o ápice de todo aquele calor, de todos aqueles apertos e unhas e gemidos, se o ato sexual que prossegue este não fosse, incrivelmente, melhor....
- Querida?
- Oi, sim, hã?
- O relatório...leve á sala do chefe hein...!
- Ah, sim, claro, desculpe. Obrigada.
- O que foi querida, quer me dizer alguma coisa?
- Não, é...bem, não, não! É que me distraí...
- Bem, olha, eu e mais uma amiga vamos tomar umas cervejinhas depois, não quer vir com a gente? É só pra descontrair e conversar um pouco...vamos?
- É...bem...não sei. É que, tenho algumas coisas pra fazer hoje, sabe...fica pra próxima. Obrigada.
- Que pena, seria ótimo conversarmos além daqui, mas...beijinho.
O telefone volta ao gancho do aparelho e os olhares e risos dos que a cercam voltam a refletir em seus olhos. O relatório chega á mesa do chefe e ela chega em casa como todos os dias após terminar relatórios e a distrair-se e a imaginar, a não ir beber e nem conversar, não convidar e arrepender-se e se perguntar os “porquês”, e durante a solitária madrugada aquele sonho volta e faz com que ela ignore que mais um dia no presente é menos um dia no futuro e que este será apenas o próprio presente adiado.

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