segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Anos de solidão sem literatura.


Abro um sitio internético, desses comuns de monopólio informativo, e me deparo, dentre todas aquelas manchetes pescantes  e títulos isqueiros, com um que se joga aos meus olhos drasticamente e não deixa mais que nenhum outro seja visto, me atrai e trás abaixo das garrafais letras uma imagem sorridente de Gabriel Garcia Márquez, mas eles o matavam enquanto fingiam temor, ou apenas tentavam, pois na fantasiosa realidade sempre se pode viver, mesmo que não se chegue ao fim.
Noticiava a escrita que em um país do “velho mundo”, no qual geralmente os habitantes falam demasiadamente alto para a importância da conversa e defendem com demasiado medo uma fé pouco crível, algum veículo midiático realizou uma pesquisa dessas que tentam provar ou “demonstrar” algo importante e na maioria das vezes consegue, já que demonstra que as pesquisas só servem mesmo para ocupar pesquisadores. Não vou entrar na conversa de entrar no mérito da seriedade do veículo em questão (do que realizou fantasticamente a pesquisa e do que mancheteou a que eu li), nem da relevância do conteúdo, porque veículo de comunicação sério mesmo não se presta á estas pesquisas e conteúdo relevante não precisa dessa submissão, e se por acaso houver algum caso assim legítimo, então são os pesquisados quem não merecem a pesquisa. Escrevo isso porque de fato não sei se fiquei mais boquiaberto com a notícia da pesquisa ou com a pesquisa e seu resultado em si. Aceito as críticas de quem diga “Mas você fica lendo isso...”, e também sei que nestes casos, o mais racional é parar quando se lê “Pesquisa...”, só que a imagem do Gabo com seu grande sorriso sub-bigodal me fez terminar de ler o título e perceber que o embate seria no esfera literária e logo prossegui ao texto, e tinha de fazer isso.
““Cem anos de solidão” é o livro mais difícil de ser lido” era o título da matéria seguida do tradicional subtítulo (necessário porque os títulos não são bons), que ajudava a explicar o superior, e dizia que o livro do colombiano Garcia Márquez encabeçava a lista das dez obras mais difíceis de serem lidas até o fim para leitores italianos. Dos outros que constavam na mesma lista lembro-me apenas de uma obra do Umberto Eco, por ser compatriota dos limitados pesquisados, pois oque importava mesmo era que tratávamos do grande escritor latino-americano e da baixa fertilidade de fantasia no campo da realidade estrangeira à nossa grande pátria. Vejamos que, não é a questão de ser a obra em questão, difícil de ser lida, apenas. Não. A tal pesquisa “aponta” que é a obra a mais impossível (sim, sei do erro de concordância, se é impossível é impossível, e não há mais ou menos impossível), a menos possível entre as dez menos possíveis de serem iniciadas e terminadas em leitura, portanto, a mais impossível de ser lida do inicio ao fim em um ranking das dez mais. Em resumo, o conteúdo da notícia da pesquisa é esse.
Não é fazer apologia ou defender um gênero literário e/ou um gosto literário preferível, pois para isso pode-se ser mais direto e menos educado, mas fiquei algum tempo imaginando como é ser um leitor quando a leitura nos possa parecer absurda. A arte não imita a vida, ela leva aos olhos atentos oque é a vida que não é percebida, e, quando possível, tenta dizer “quão fantástica é a realidade!”. É disso que se trata quando uma nação que já explorou “deus e o mundo” (literalmente!) se vê em uma invencível crise econômica, mas não se vê em uma superável crise humanitária.
Realmente, a vida na américa das línguas latinas e dos hábitos indígenas tem mais paixão, mas também mais dor. Tem mais fé, e ao lado o mais profano. Tem os generais que sobem à custa do sangue do povo e que depois caem no próprio sangue, tem o trabalho que liberta da miséria que é o mesmo que a miséria nele escraviza, tem eu-te-amos por um beijo e eu-te-matos por outro. Bandeiras, santos, carnavais, gols, espíritos. E tem famílias que vagam e vivem isso tudo como se fosse nada e outras coisas como se fosse tudo. Fantasiosamente, também tem.
Poder-se-ia escrever que o grande Garcia Márquez escrevendo leva qualquer um ao fim de qualquer obra carregado na ponta da caneta ou em teclas saltitantes, mas aí, precisaríamos apenas essa frase para demonstrar que a tal pesquisa não demonstra outra coisa que não seja que os pesquisados merecem a pesquisa a qual foram submetidos, e faltaria a fantasia. Na realidade crua isso já seria o fim, mas no realismo fantástico sempre se pode viver mais, mesmo que não chegue ao fim.

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