terça-feira, 13 de novembro de 2012

Crônica de uma morte noticiada (ou a crônica que poderia ser social, mas é individual).


Nu e em queda-livre vai o organismo sem nem mesmo saber para onde, sem nem mesmo pensar se está nu e sem nem mesmo entender que está em queda-livre. Cai por terra, ou por água, junto com aquele corpo, tudo o que se pensa, tudo em que se confia, toda a esperança, tudo em que se sente. Em meio às novas construções e as velhas concepções, cai. Cai e destrói gerações e despedaça-se em outras novas que já nascem em pedaços. Nu e sem a menor noção ou possibilidade de esconder as partes que agora não envergonhariam ninguém mais, pois agora a vergonha é de quem vê, é de quem vive. Em queda-livre, aquele livre que assusta, que amedronta, que desespera e que ninguém quer, o livre indesejado e forçado a aceitar, com vento no rosto, com olhos fechados e sem roupa alguma. Vai em direção a um indefinível líquido que é sólido, que não pode livrar nada e nem ninguém a não ser da vida. Envolto em tecnologias, mergulhado em tradicionalismos. Alguns afirmam ser apenas segundos, outros dizem ser incontável a duração, mas isso pouco importa, pois o impacto é o que vai acontecer, inevitavelmente, e todo o ar que por um momento parece excessivo irá faltar, e todo o poluído ar seria muito melhor, seria definitivamente melhor, seria vital. A queda é livre e é nua, e todas as grandes obras dos homens estão imóveis, as grandes pontes não unem nada e nem ninguém, elas agora distanciam tudo e todos, e todos ou poucos também estão imóveis. Há fotos, há imagens, há microfones, e sempre houveram, antes mesmo da queda findar-se, mas nada a impede, e mesmo após, as fotografias, as imagens e os microfones sobreviverão, e haverão quem os veja e procure, sim, aqueles que por ventura não tenham vergonha de olhar as partes, a nudez, a queda. E a sociedade, o organismo social, continuará, ainda nu e em queda-livre, sem nem mesmo saber em que momento será o impacto, sem saber para onde, se nem mesmo saber que está nu e sem entender que está em queda-livre, mesmo já sem a presença daquele corpo, pequeno corpo, que cai da ponte que distancia as vidas, que caiu, destruiu e despedaçou, envergonhou, nu e em queda-livre, em meio a tudo e a todos.

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