sábado, 17 de novembro de 2012

Redenções noturnas.


Ecoam, refletem e rebatem, ou apenas surgem em algum ponto indefinível que ao que parece o mais lógico seja pelo ouvido e adentram ecoando, só que apenas uma vez cada uma delas é ouvida ou sentida, mas assim mesmo parecem ecoar, e o mais lógico em realidade não existe, pois não é lógico que aconteça, que ecoem, que ao menos sejam ouvidas. Há mãos que esfregam a cabeça e os cabelos são agarrados enquanto uma lembrança de poucos segundos atrás torna ainda mais duvidosa a existência sonora da frase supostamente ouvida. Agora, na tentativa de esclarecer a mente, No se puede, la vida no vale nada, no se puede... parece saturada de sarcasmo, satírica, um riso verbal que anosa as medrosas hipóteses que se esforçam em provar que não é nada e que tudo passará, que é imaginação, como se não fosse este próprio o motivo do inseguro nervosismo, que é imaginação.
     Sabe que ninguém o entenderá, que sua angústia não é gratuita, que a vida de merda que as pessoas levam é o que incomoda e receia aquilo com asco e sabe que a ciência e a psicologia, com suas teorias, hipóteses e dedos apontados, só podem potencializar a angustia. Sabe que é mais uma noite de guerra, como várias outras passadas e superadas, como todas nos últimos dez ou quinze dias. Sabe que mais uma dose não resolverá nada, se todas as anteriores já não resolveram, nem perambular pela casa, nem ler ou escrever, que isso é praticamente impossível perante a dispersão raivosa a que se encontra intelectualmente. E já é tarde (ou cedo), a noite passa em horas que não passam.
  A madrugada é o período propício aos acontecimentos menos críveis e também por isso é ela que oferece, ela desafia, ela é que instiga com a sua falsa serenidade e com o privilégio de esconder-se atrás das incertezas que o dia carrega posteriormente. É madrugada outra vez e os olhos estão desesperadamente arregalados novamente, e guiam a cabeça para todos os cantos do teto do quarto a meia luz, sem coordenação nem sequência organizada á procura de uma impossível origem para o hei, hei, siiit! que ameaça os ouvidos, e tremem junto com o corpo que transpira quando Elas tem de ir embora, você sabe, não existem, tem de ir embora! surge e foge de canto a canto, nas paredes ou sob a porta. Para de procurar e recupera a respiração, aperta as laterais do crânio que lhe aparenta ao tato estar enorme. Senta na cama, esfrega os olhos com as palmas das mãos, levanta e caminha até em frente ao espelho onde se vê e vê que suas formas cefálicas estão normais, os olhos avermelhados e pulsantes, a ponto de explodirem, seguros nas cavidades por aquelas teias de artérias vermelhas, vê uma caveira com olhos fumegantes em seu reflexo, e lava o rosto com muita calma, como para aproveitar ao máximo aquilo, a água escorrendo pescoço á baixo, aliviando tudo por um momento antes que tivesse que retornar á tarefa de tentar dormir e com receio de tudo o que poderia acontecer novamente. – É isso mesmo, elas não existem, elas tem de ir embora!, fala olhando os próprios olhos para em seguida pensar que se ouviu esta última afirmação que lhe fugia aos olhos pelas paredes e pelos cantos do teto a qual acabava de fazer coro em voz alta na frente do espelho, então ele mesmo já dá importância ao que tem que não admitir, aquilo tudo deveria acabar ou não aguentaria mais, fraqueja suspirando, retorna á cama e deita-se com uma umidade nos olhos que aglomera-se em gotas, e algumas rolam ao travesseiro. O sono castiga as pálpebras,...mélancolie...emerge com entonação amiga e compreensiva, um sopro próximo ao pescoço que de imediato conforta, e no intervalo de uma respirada segue Isso não é real!, resgatando novamente o transtorno, Nós temos que desaparecer da sua cabeça!, está insuportável, quer gritar e sabe que não vai adiantar, elas não irão desaparecer com isso, se va a estallar, se va a estallar..., é oque acusa uma delas como se quisesse presenciar um estilhaçamento cerebral saboreando a participação no feito, e uma melodia de violinos e pianos com volume que alterna momentos máximos com posteriores suavidades que volta a aumentar e o ritmo também acelera junto com o volume, travesseiros são apertados com dedos que matariam, são arremessados em direção aos fantasmas sonoros, hei, siit...não é assim que se faz..., é o que lhe soa desafiadoramente agora que está sentado na cama com as mãos apertadas na nuca e os cotovelos encostados frente aos olhos e afastam-se para deixar fluir um grito de suplicante autoridade, - Eu sei como fazer, isso não é real, vão embora...!, e as mão soltam a nuca para encoleirar o pescoço pelo qual em seu interior a única coisa que pode passar agora passa com exprimida dor, - Aaaaaaaaaaahhh...
Finda-se o grito colérico e é possível ouvir de algum lugar ao longe um cantar de galo que entra no quarto por frestas junto a lâminas reluzentes e depois o silêncio. Um corpo fetalmente encolhido no centro da cama não ouve o seguido cantar auroreal, as pálpebras abraçam e acalentam os olhos, as mãos estão relaxadas, e tudo levita na ausência de som.



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