segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Venerações apolíticas.


Se tivesse que usar de sinceridade pura teria que admitir que gostar daquelas populaçõezinhas, mesmo, não gostava. Pelo menos não antes de começarem a envolverem-se, e depois, bem, depois era mais um certo cuidado, um pouco de responsabilidade, quase um paternalismo o que se desenvolveu dentro dele  em relação àquela massa que, mesmo que por vezes ou para alguns fosse quase imperceptível, pôs-se em marcha, sim, como exércitos de soldados que mesmo não sabendo exatamente o porque, apenas marcham, cegamente, em um curso que passa a nítida impressão aos que não estão em concurso de que há um objetivo claro neste movimento ainda que nunca há, e neste caso, também, se há ou não, nem ele e ninguém mais o sabia.
O caso é que naquele dia, e pode não ter sido naquele dia exatamente, mas é o que lembra, que, naquele dia, havia já tomado o seu modesto desjejum, o qual não era mais que uma xícara de café e um pão francês amanteigado, ás vezes com queijo e mortadela, mas não naquele dia, e uma fatia de mamão, nunca em outros dias, mas sim naquele, ouvido e visto apenas algumas das principais notícias do dia no telejornal matinal que, por ser o telejornal matinal não pode conter as principais notícias do dia, pois este está recém começando e o telejornal serve mais para isso, distrair o acordar pré-trabalhista de todos e mandá-los, sem atraso, aos respectivos serviços, retrucou algumas das notícias como se ouvido fosse, estava já prestes a pegar a bicicleta e sair para trabalhar. Pedalaria algumas quadras que somadas seriam alguns quilômetros, poucos, uns três, e chegaria ao mercadinho em que trabalha, faz entregas, também de bicicleta, só que esta é do próprio comercio, adaptada com uma cesta grande em que cabem muitas compras, muitas mesmo, em verdade cabe até onde o entregador aguentar levar, e as faz então nos domicílios de clientes que compram ali e não tem ou não estão de automóvel, talvez não queiram carregar peso e, que mal tem isso, o estabelecimento é que oferece esta vantagem, ou simplesmente tem alguma dificuldade, como são em maior parte os que optam por esta solicitação, que são as dificuldades em função da idade já avançada.
Bem, isto é o que faz todos os dias em que trabalha, mas, naquele dia em que julga-se tenha começado a tal estranha convergência, estava prestes a tomar em mãos o seu biciclo de transporte, deixá-lo já pronto para montar, quando avistou algumas formigas que aglomeravam-se ali, na maçaneta da porta que ainda estava aberta, pois ainda retornaria para fechá-la e antes ir reescovar os dentes, que era de seu hábito fazê-lo pré e pós café-da-manhã, e olhou como se visse isso mesmo, algumas formigas aglomerando-se em uma maçaneta. É claro que considerou incomum, não a aglomeração em si, mas ela na maçaneta, que não é todo dia que se vê um grupo de formigas tomar conta de uma como se quisesse manuseá-la, e mesmo não havendo mão alguma naquele grupo usamos a palavra, manuseá-la, e foi isso que por instantes pensou, mas não deu muita atenção. Escovou os dentes novamente e ao intencionar sair definitivamente de casa viu sobre a mesinha, que não é propriamente para as refeições, mas todas são feitas nela e incluso está, então, o tal desjejum em que alguns restos, ou melhor dizendo, algumas sementes, e sementes nunca são restos de nada, são é o início de tudo, e as sementes de mamão sobre a mesinha foram vistas então cobertas delas, formigas, e de súbito olhou para a maçaneta da porta e avistou novamente aquele movimento disforme e arrepiou-lhe a espinha e o corpo até sentir o esfriecimento subindo-lhe ás bochechas, apesar de não as ver senão como formigas em sementes de mamão e as da maçaneta não lhe passava pela cabeça o motivo de lá estarem, mas não lhe trazia preocupações alguma.
É também verdade que, e este é o momento em que todos podem dizer o contrário com toda a autoridade do mundo e com a cara mais sínica que se fosse consigo perceberia já ali, que “comigo isso aí nem começaria”, “simpatia pra formiga minha vó me passou várias”, e todas essas afirmações que só são possíveis quando não são possíveis de serem aplicadas, mas, a verdade é que ninguém suspeitaria de nada, formigas são vistas a toda hora e em todos os lugares (e quem se atém a elas?), e além de tudo isso, a hora da refeição matinal é, obviamente, por ser o despertar, um momento sonolento, e somente após algumas pedaladas é que percebeu que na estrutura do veículo, correia, rodas, raios, freios e, sim, no banco, haviam mais delas, os seresinhos andando em incomum desorganização, mas ali, pendurados, agarrados, ou apenas ali, que talvez para eles não necessite este drama cinematográfico, mas ali estavam. Parou, desceu da bicicleta e bateu-se com as mãos nas calças, braços, camiseta, e tirando esta usou-a para espanar as que afixavam-se na “bike”.
 Agora sim dava já alguma importância á elas, principalmente com pensares e alguns dizeres antipáticos enquanto expelia-as, porém, o caso mesmo ainda viria a ser visto, por mais que demorasse um pouco a ser percebido, chegaria, e chegou mesmo, porque isso tudo da descrição de como possivelmente começou aquele ímpar sucedido é o que ele mesmo disse ao doutor biólogo quando o procurou buscando respostas ao que denominou, sendo questionado sobre que problema lhe afligia, que era perseguido ou algo parecido, só que sem riscos, pelas formigas.
Chegou ao trabalho e, um pouco já desgostoso com o dia, começa a perceber correições de formigas, coincidentemente em demasia, ao seu redor, onde passou, onde está passando e, acredite-se até que for possível, onde passaria. Faz uma entrega, um galão de água, arroz, extrato de tomates, alface e cebola, e formigas na bicicleta, na faixa de pedestres, na casa do cliente, no retorno, em frente ao mercado, e outra entrega em que a senhora comprou todas as formulações químicas da prateleira de produtos de limpeza doméstica e as formigas estavam, inclusive, nas embalagens, e no retorno, em frente ao mercado, correições em sua direção. É lógico e natural que qualquer ser humano em sã consciência, em uma situação semelhante, primeiramente, remeta a si próprio a dúvidas sobre a sua sanidade mental, e não comenta-se isso com ninguém, “o que podem pensar esses doentes?”, “não estou com problema algum, é só parar e ver as correições”, “desdenha assim porque não é contigo, fanfarrão”, e assim sendo, lógico e natural, procurou psicólogos e psiquiatras e foi inútil, completamente, pois, para início da conversa, e inicio mesmo, por vezes antes do início, as romarias fórmicas tomavam conta dos olhares psico-analíticos, e a resposta era que, de fato, elas o perseguiam, mesmo que sem riscos, mas estavam lá e isso era indiscutível.
E foi um deles, doutores do conhecimento sobre o pensar alheio, que indicou, mais se livrando do caso do que preocupado estando com ele, está certo que havia verificado em pessoa as perseguições, mas, isso lhe causava mais receio do que desafio profissional, e então indicou, “procure algum especialista, sei lá, ah, sim, um biólogo, é isso, um biólogo certamente saberá mais do que eu responder a esta anomalia...”, e continuou dizendo que profissionais como ele até podem, e por vezes devem, tratar de humanos em comportamentos animalescos, mas nunca o contrário.
Seguiam, seguiam, e seguiam-no. Estavam presentes na vida dele já por completo, mais até do que aqueles familiares que aparecem para almoçar sem convite ou aviso prévio algum e mesmo quando não o fazem deixam a preocupação de que podem fazê-lo e isso dá a impressão de que sempre aparecem para almoçar, e assim sendo, eram já familiarizados. Só que a veneração, esta em nada tendo que ver com famílias, era absurda, e foi sendo notada por ele a cada dia mais, e não refere-se aqui ao enorme contingente que cotidianamente brotava de forma aritmética. Tratava-se aqui de devoção em essência. Sabemos todos que as formigas são, dos seres que habitam este miserável e extraordinário planeta, os que mais prezam pela questão alimentícia, a de sua espécie, admita-se, mas também o faça-se que são exímias gerentes da previsão para os dias infortúnios e para as suas próximas gerações neste quesito, e elas, as seguidoras deste improvável seguido entregador de mercearia, não demonstravam mais esta convicta característica e ele percebeu em certo dia que algumas de suas companheiras, que já eram este adjetivo, estavam mortas pela casa ou nos caminhos mais habituais, ou a morrer nestes mesmos locais. Centenas e milhares ou centenas de milhares de formigas aglomeradas em seu redor ou perseguindo-o certamente não desenvolveriam com ele particularidades, e não era em particular com nenhuma delas o apreço que lhe tinha tomado o peito, era na massa constituinte daquele corpo metamórfico, e ele já não sabia se sentia-se seguido, perseguido, caçado ou idolatrado, sentia sem dúvidas que precisava fazer algo, que aquelas mortes lhe apunhalavam o coração, neste caso melhor caberia alguma expressão do tipo “lhe alfinetavam o coração”, porque eram várias, muitas, sabe-se lá quantas e isso em punhais seriam em excesso para qualquer mortal, estava inconformado, era adorado e adorava sem que um pudesse ser medido mais que outro.
Vestia-se em alguns dias com as roupas que considerava, veja-se que haviam desenvolvido-se observações mútuas complexas, que por algum motivo agradavam mais o seu povinho ou que lhes estimulava enfaticamente, a sabe-se lá à que, talvez nem ele e nem elas saibam. Faltava ao trabalho em dias comuns de comparecimento, como terças-feiras ou sextas, nada programado, apenas por, ao acordar, entender que ficando em casa naquele dia facilitaria todo o movimento delas e que naquele dia o movimento era tão importante que merecia esta atenção, e em outros, mesmo que considerava perceber algo incomum, como se tudo isso já não fosse, dirigia-se ao trabalho soberbamente, quando não dando olhadinhas para trás e ver em ação a sombra negra desesperada, limitada pelo tamanho das próprias pernas, ou mais ainda quando saía-lhe, sussurrado, um egocêntrico “se querem então que venham!”, e os dias passavam, o contingente, se é que isso é compatível, aumentava, e as relações entre o suposto ídolo com os que o idolatravam distanciava-se á medida em que, contraditoriamente, estreitava-se.
Tudo isso disse ao biólogo, tudo mesmo, o antes e o pós-psicólogo, e o doutor dos seres vivos tentou compreender tudo á luz da ciência, exceto quando ouviu narradas as relações psicológicas, como a das vestimentas que mais simpatizavam a todos, os dias de mais afeto e de mais despotismo, entre outras coisas não relatadas anteriormente, como barbear-se ou ficar com a barba crescida em eventuais dias, pois aí o biocientista teve que lhe ser franco e direto, dizendo “isso aí já não é de minha esfera profissional, melhor seria confessar á um psicólogo, sei que já procurou mais que um, mas ainda não havia sucedido isso que me disse quando os procurou”. Antes, verificou como qualquer cego também poderia fazer que o conviver daquele homem com as formigas era existente, sem dúvidas, e perguntou-lhe muitas perguntas, as com maior aparência investigativa tinham que ver com o início do ocorrido e, com alguma possibilidade de indução por terem sido feitas, com o fim, e querer saber sobre o final das contas isso também naturalmente se faz, mesmo que nada tenha um final propriamente, tudo transforma-se em outra coisa e então induze-se ao fim o que é uma mera transição.
Sobre como começou, ou como crê e quando começou, repetiu o que disse ao psicólogo. Com uma perspicácia mais comum ao outro do que ao biólogo que agora falava, ouviu que tentasse “pescar” lá do fundo da memória algum comportamento diferente do de sempre e, sem conseguir por mais que quisesse, voltou a falar a mesma lembrança que tinha do dia em que se percebeu uma convergência formigueira. Que se coma mamão nos momentos aurorreais não é incomum, então, deve ter outra coisa, não esconda-se o adocicado incomum que aquele mamão apresentava ao paladar conforme o devorador confessara, mas disso todos temos o direito de fazer e menos a sorte de experimentar sem sermos endeusados e nem endiabrados, assim como temos o igual direito, todos, de discutirmos com o telejornal, mesmo quando só o ouvimos sem ver, enquanto escova-se os dentes, ainda assim o doutor biólogo quis saber qual foi o retruque, já desprovido de qualquer munição científica, estava curioso e esfregando as mãos como quem ouve um causo bem contado, e o que de mais profundo lembrava-se o homem das grandes multidões de pequenos era que o retruque foi “e o que sabem esses grandes bostas sobre o povo ou sobre a fome?”, sem nem ele mesmo poder afirmar se as ditas e escritas eram exatamente estas, em ipsis literis.
Nada do concluído sobre o início pode ser conclusivo sobre o caso. Isso pouco impacto teve para o maior envolvido, o suposto ciclista entregador de mercadorias, ou melhor, o suposto líder que suponha-se entregador de mercadorias em bicicleta, porque, e isso percebeu o biólogo e todos poderiam sentir também após o inicio das mortes, o que lhe preocupava de fato depois que começaram a acontecer, eram as mortes, e aí fala-se, sem ironias, sobre o fim. A situação era extrema, a dependência mútua, e não podia admitir que as formiguinhas seguissem-no a ponto de não terem mais suprimentos para a própria sobrevivência, e no entanto, era isso que se sucedia a cada dia mais, e disse então ao doutor, disse como quem se confessa mesmo, baixou um pouco a cabeça como os culpados fazem quando confessam e também os devotos religiosos, como se a lâmina da espada já estivesse encostada na nuca e a sentisse trêmula por causa da afobada mão do carrasco que a segura, disse, que passou a dar-lhes de comer, e seguiu-se as justificativas sem freios e amedrontadas, como se precisasse de alguma para não querer ver algum a morrer de fome.  A represália que recebeu veio por um misto de decepção, inquietação, e susto boquiaberto. Explicou ao doutor que o movimento agora era assim, que dependiam dele, ele tinha que fazer algo e se não fizesse elas também não continuariam, não haveria como continuarem, mas de qualquer forma, elas é que dependiam dele.
O que aconteceu a partir daí é um tanto evasivo e talvez a complexidade do incomum ocorrido é que não deixe que se perceba mais nada de conteúdo conclusivo. Não aceitava as sugestões que lhe davam para livrar-se das formigas, e não tinha nem interesse em saber. Mas, e as situações sempre chegam ao ponto de nos soprar aos ouvidos os “mas”, a ingovernabilidade daquilo tudo estava deixando tudo ingovernável mesmo, não sabia mais em que lado da cobra estava a cabeça e não poderia, nunca pode, haver duas, o corpo se romperia e a tragédia, nestes casos, seria precedida por um momento de prazer único para cada uma ao ver a derrota no rosto da oponente, e um prazer potencializado pelo prazer de saber que a outra não terá o prazer maior, mas viria o segundo momento em que a percepção da própria tragédia amareleceria os sorrisos e ambas as faces, e antes que isso ocorra são necessárias decisões, ou, resignações.
Os mantimentos alimentícios eram fundamentais agora, pois, as gerações de formigas sucederam-se e, as que atualmente o seguiam não tinham outra motivação que não esta, mas tinham que fazê-lo, era assim, e assim mantinham-no como o ser a ser seguido e ele mantinha-se como tal. Houveram dissidentes, sim, e inclusive, pessoas próximas ao ícone original, como que por brincadeira, começaram a dar o que comer á elas e criou-se assim novas correntes de idolatria. Agora, se sentia já uma delas. Em constante suplício aos seus próximos, pedia-lhes que não as dessem os mesmos privilégios, às vezes exaltava-se porque lhe copiavam, às vezes consentia com os auxílios alheios para tirar proveito da aglomeração próxima a ele.
Definitivamente, não era mais um caso incomum, acontecia ou poderia acontecer á todos e a toda hora, nem mesmo as formigas o reconheciam mais, as apelações de aparência não o diferenciavam, os afagos ou inquisições, tudo, parecia-lhe que não tivera importância alguma, que elas procuravam outra coisa que não aquilo, e ficou como legenda para algumas apenas, que ainda faziam as venerações conforme lhes era mais conveniente e preguiçoso fazer, e ele era uma formiga que carregava produtos alheios á formigueiros alheios, outras fomes e populações outras, e via, às vezes, quando vinham á tona agora casos semelhantes em que alguma massa populacional seguia cega algum outro ícone, e dizia para si mesmo, “que formigas estúpidas”, enquanto tratava das suas. 

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