quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Acaba o fim.


A (in)esperada hora se aproxima e o céu que estava com sua celestial lucidez até então, ganha negras formas nuveais, um vento quente leva e trás para todos os lados fétidos odores que muitos afirmam ser de enxofre, raios no horizonte promovem o encontro do céu e a terra. O cenário monta-se por si, ou monta-se no desesperado imaginário de muitos dos humanos habitantes nesta hora em que se aproxima a tal hora temida.
A imagem e as ações não são propriamente as cinematográficas e certamente teriam um fracasso de bilheteria se o fossem, mas de qualquer forma, há alguns suicidas e em maior número, homicidas, o que isoladamente não necessariamente comprovaria ou seria prova irrefutável de que estaríamos vivenciando o início do fim, mas começam a ocorrer os incomuns e atípicos fatos que, sim, só poderiam ocorrer nesta ocasião.
Muitos amigos e conhecidos, parentes distantes, esposas e maridos, mas principalmente, pais, filhos e irmãos, sentindo que a coisa enegrecia-se mesmo e que não haveria escapatória, o inacreditável agora é plenamente crível, correm, telefonam, dirigem ao encontro do outro irmão, pai e filho, ou conjugue, ao velho amigo para suplicar-lhe perdão, que todos têm alguma pendência familiar ou amistosa a qual fica guardada, fingidamente esquecida, mas a hora agora é oportunamente inédita para sanar todas estas mágoas rancorosas e partir para um novo mundo todos limpos e lisos, valia o esforço agora, muitos abraços e sempre muito choro. Há pessoas trancafiadas em si mesmas e outras em quartos, e há também gritos “munchianos” pelas ruas, mas não muitos destes casos. De um modo geral, até o momento, é um fim-de-mundo estranhamente resignado, só de incomuns atitudes como as do perdão.
Os relógios continuam a funcionar e todos sentem os ponteiros apocalípticos no próprio encalço, e os comportamentos gradativamente se alteram. É incrível como algumas coisas podem acontecer rápido, algumas do tipo manifestadoras, pois há agora algumas manifestações políticas formadas em alguns lugares da Europa, e ainda mais incrível é que há também cobertura jornalística, principalmente a televisiva. Tudo isso para não perderem a oportunidade de transmitir ao público geral os cartazes e faixas e cânticos “anti-imperialistas” que acusavam este (in)visível império do capital da culpa pelo trágico momento a que se chegou, e no final da reportagem, notas exemplares de civismo dizendo que numa hora dessas, haveriam aqueles bagunceiros de estar fazendo outra coisa de maior importância, sendo que a própria mídia não fazia nada diferente. O governo alemão diz estar envergonhado e que não sabe o que fazer. Nos EUA o governo admite que Fidel Castro não tem nada a ver com aquilo. Na China comunista uma grande quantidade de pessoas desorganizadas, incitadas por hackers, aderem a “sites” de internet proibidos, muitos pornográficos, arrependem-se de morte por não terem feito isso antes, e veem de súbito que existe um mundo bem maior fora do país deles, e logo lamentam que em breve se acabará. O governo não sabe o que fazer. Na África subsaariana, coitados, a informação relativa ao fim-dos-tempos não chegou, e no Japão, sim, e os japoneses receberam-na e a transformaram em piadas de três palavras sobre o mundo ocidental se acabar. Em Havana, Fidel Castro admite que os EUA não tem nada a ver com aquilo.
Agora são os próprios ponteiros dos relógios que tem no encalço uma esmagadora engrenagem Maia. Na América do sul os questionamentos metafísicos ganham corpo. Muitos ateus mantiveram seus discursos bem embasados de que nada demais haveria de acontecer, é só uma tempestade, mas alguns percebendo o grave da situação, não receberam do medo outra alternativa do que ajoelhar-se e olhar para cima pedindo desculpas e clemência com toda a fé em um agora quase material deus. Os crentes, estes todos, todos, revoltam-se contra o deus que agora não existe mais, todos muito nervosos, esbravejam contra as mentiras que lhes fizeram acreditar, que ninguém estava a se salvar, estavam cozinhando na mesma panela em que aqueles que nunca precisaram se sacrificar, aqueles que sempre se utilizaram de todos os pecados para a satisfação mundana, agora engrossavam o mesmo caldo. Os agnósticos sustentam-se por cima da carniça até os minutos finais, mas aí também não tendo glória alguma nisso, esvaecem-se em frases desconexas.
Os relógios apontam a hora certa, a hora que não deveria chegar, a maldita hora que alguém descobriu que seria a última hora, a detestável e chorosa hora, imperdoável e indesculpável hora, a apolítica e laica hora, a hora que chegou, a hora que..............passou. Os ponteiros apontam e logo depois desapontam, e apontam para a hora sucessiva, chove em alguns lugares do planeta, como em todos os dias, os desabraços começam a acontecer, frases titubeadas, algumas afirmativas, outras que interrogam, todas em torno do momento que chegou e passou e todos ali estavam, e tudo estava ainda como antes estivera. Acabou o fim-do-mundo! E os momentos finais do mundo serviram para poupar o novo-mundo de centenas e milhares de anos de discussões e conceitos e falsidades que só levar-no-iam a um novo fim.

           

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