quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Possíveis cárceres e improváveis liberdades - 1


      Estavam um de frente para o outro, à curta distância alcançável com o braço. Um deles gesticulava muito e falava também nesta quantidade, em palavras e frases lamentáveis e reclamações lamuriosas. O outro parecia insuflar o peito a cada palavra a mais que ouvia, e não dizia nada, mas respirava com gradativa ofegância, mantinha a testa franzida e os lábios apertados, e ouvia mais e mais, e então, fez o movimento com o braço em direção ao peito do oponente orador e fechando os dedos e agarrando com força, puxou, arrancou-a, e manteve-se diante dele com a mão estendida na altura dos olhos e a alma do outro sobre ela, e disse-lhe:
- Esta vendo? Olhe bem! É disso que você tem medo, é disso que você reclama. Nela que está preso quando deveria nela libertar-se!
     O desalmado ouviu aquelas palavras mirando diretamente os olhos do que as falou e depois olhou estático para aquela viscosidade amorfa e esbranquiçada com uma credulidade impossível. Nunca havia visto-a e ficou levemente perplexo, mas sem questionamentos. Fez a reação braçal de busca, de retomada de algo que está ao alcance, pegou-a e como se estivesse com uma camiseta em mãos, revestiu-se de alma.
       Depois disso foi visto vagando em muitos lugares, quase todos em que alguém pode ser visto, apenas não mais ali, onde acreditava que entendera a liberdade que necessitava e que temia que pudesse entender de novo que não a compreendeu bem.

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