quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Dos avessos e do próprio amor - 2


Ela nem percebeu que era mais um dia comum, igual a muitos outros, que poderia confundir-se com vários mais, se não fossem as pequenas particularidades que cada dia contém e que, por trás das diárias aparências eclipsantes vê-se que elas é que se apropriam dos dias e fazem dele secundário em importância sobressaindo-o, e depois, nas lembranças, pensamentos e percepções, que é quando tudo o que acontece se materializa, os passados dias em suas formas próprias deixam de existir e só ficam as particularidades de cada um.
Ela não percebeu que era um daqueles dias em que as árvores movem seus galhos e chamam o vento, que fica escondido em algum lugar que só elas sabem, e aí ele vem brincar com o dia. E mais tarde, em meio à tarde, quando o calor já havia aproveitado ao máximo a oportunidade que o dia lhe concedera, as cigarras metodicamente organizaram sua orquestra que tomava conta de todo o grande e espalhado palco da cidade, e a chuva, mais uma vez, não resistiu ao eruditismo musical dos insetos e juntou-se a todos os elementos cotidianos que não eram de outro dia senão daquele.  
Ela estava triste e solitária demais para perceber qualquer coisa, e sendo assim, quando chegou em casa e guardou o carro na garagem pois pensara em não sair mais, não percebeu que o sol e a lua ainda pisavam à mesma passarela, um em cada extremo olhando-se frente a frente, e ele dizia, convidando-a, que era a vez dela de desfilar. E depois de entrar em casa e de sentir-se só, e sentir que a escuridão noturna que caia dentro de si todas as noites já estava novamente estrelada, percebeu que o seu cão lhe rodeava choroso, secou as estrelas que lhe corriam dos olhos e esboçou um sorriso para ele dizendo que não se preocupasse, que ela cuidaria dele, que ele não precisava entristecer-se, ela gostava dele e não era como todas as outras pessoas que não se preocupavam com nada além do próprio egoísmo e que faziam-na solitária e triste, ela não. E não percebeu que o que ele lhe dizia era que passasse a mão nele e assim toda a tristeza que sentia se resolveria e ela iria sorrir, e sentava-se sobre as patas traseiras e oferecia à ela a cabeça.

         

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