segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Vida em golpes.


Em meio a palavras engasgadas e soluçadas, palavras molhadas e encharcadas pelas lágrimas e pela baba, dizia ao outro:

- Eu não vou aguentar mais, não consigo, não aguento mais um dia disso tudo...

Sentia-se exausto. O corpo todo parecia-lhe que pesava sobre ele mesmo, esmagando-o com o próprio peso, incapaz de suportar-se a si. A pele estalava enquanto os músculos abriam caminho querendo evadir daquele corpo trêmulo. Esse era o tipo da dor que sentia naquela noite em que, como todas as outras, amontoavam-se ele e outros no quadrado úmido e rançoso, com vergalhões de ferro entrelaçados, que lhes era moradia, e apesar disso, não conseguia dormir.

- Amanhã não vou aguentar...estou com medo, estou com muito medo...

Quem ouvia-o estava naquela vida há bastante tempo, e ouvia-o com atenção, e talvez mais que isso. Havia olhado já as feridas e marcas do companheiro enquanto ouvia mais lamentações, e cuidara delas como pode. Tinha mais paciência do que pode alguém ter, e doava isso como se fosse alguma penitência enquanto vivesse. Ouvia-o querendo ouvir, e não querendo uma oportunidade para falar, e sabia que isso seria importante.

- Você já passou por isso muitas vezes – chorava – como conseguiu? Como consegue?

Sentia-se desesperado e pensara já que se morresse seria melhor do que passar sabe-se lá quando tempo vivendo para morrer. Disse ao companheiro sobre isso, e disse que o que estavam conseguindo era exatamente o oposto da liberdade a qual almejavam. E disse também que ainda assim teriam que manter a honra do motivo pelo qual se expuseram e que havia um orgulho ideológico que não poderiam ferir, por isso deveriam ser dignos sob qualquer circunstância, e era disso que estava com medo, de não manter-se digno e, quem sabe (?), desmoralizar a todos.

- Nos calamos e eles ficam mais nervosos, e mais e mais...

O outro ouviu tudo - cada soluço e cada palavra – e depois explicou-lhe:
- É isso! Meu amigo, escuta: se amanhã você desmaiar, aproveite o sono. Se o seu corpo se calar, eles não ganharão nada, e depois, não dormirão. Eles, sairão derrotados.

Depois de ouvir continuou o choro, agora ainda mais incontrolável, abafado nas palmas das mãos, mas agora, junto ao choro, ria, ria muito, soluçava rindo e chorando, e conseguiu ouvir os apelos do corpo para dormir e descansar.

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