quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Vida em vestes.



Caminhava ao lado da avenida (era mais uma estrada urbana), que no sentido dos passos que eram dados, levaria para fora de lá e depois poderia então levar a qualquer lugar. Vestia uma calça que apertava nas coxas, mas se alargava nas canelas, e sandálias leves. Numa pequena mochila, pendurada por uma tira apenas no ombro, carregava algumas poucas coisas, coisas que não lhe lembrariam a vida que estava deixando. Vestia uma camisa branca, um pouco larga, fechada com botões os quais queria desabotoar e abrir a camisa para sentir o vento na própria pele. Não pensava mais com medo ou com dúvidas, pensava que iria tardar mais para fazer o gesto com a mão esquerda que estava pronta para fazer, pois queria aproveitar preguiçosamente por mais alguns passos aquela caminhada. Avistava a estrada que se estendia e sumia nela mesma ao longe, e vestia no rosto muita maquiagem para cobrir as olheiras e as outras marcas nos olhos que o último dia daquela vida lhe deixara. “Não importa o que pensem” pensou, e disse em voz alta para si “O que é um pensamento para me ferir?”.
            Não deixara nada para trás que pudesse fazer com que retornasse ("nem agora e nem nunca", pensava), e por isso, sem olhar para trás e ver quem ou o que viesse em sua direção, levantou o braço e fez o gesto que conduziria-a pela estrada (com o polegar em riste e os outros dedos encolhidos na palma da mão). Vestia-se de mulher, como há muito tempo não sentia.

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