sábado, 23 de fevereiro de 2013

(Dois minutos) entre parênteses.


(o mundo individual, o próprio mundo. O que habita o interior de cada um, e que é individual, mas é muito maior do que o mundo de todos; maior que o mundo físico ou metafísico. Que se percebe que existe quando pensa-se que está deixando de existir, e aí tem-se a noção de que é muito mais complexo do que o mundo cotidiano, socializado, pragmático, mesmo não se tendo a real noção de sua complexidade. Era desse mundo que falava. Não o de qualquer um: o dele mesmo) era do que falava quando disse “meu mundo parece que tá acabando, parece que vai acabar hoje”. E bebeu mais um pouco de água. Passava as mãos desordenadamente pelos cabelos suados (o gesto de leve desespero dos que já se cansaram de esperar).
(sou um merda de um pedreiro fodido e quebrado, que não tenho ao menos pra onde ir, hoje. Um filho-da-puta bêbado já de manhã, e de tarde também vou estar, porque é só tomar cachaça o que posso fazer, era o que pensava) e disse “estou daquele jeito...sou pedreiro...vou dormir na obra, mas tudo bem...e terminou de beber a água que ainda restava no copo.
Devolveu o copo vazio entre as grades do portão fechado e agradeceu ao que lhe ofereceu-o. Deu dois passos para trás e abaixou-se para pegar a mala que carregava, onde guardava tudo o que lhe restara de alguma outra vida que vivera e que se terminara naquele dia. Disse “obrigado, muito obrigado. É... tudo vai melhorar, sim, eu acredito”, e saiu com passos lentos e cabeça baixa (“o mundo da gente não acaba tão fácil assim, infelizmente. Se acabasse, logo tudo estaria bem, mas não acaba. Tudo isso ainda vai durar muito, muitas vidas ainda cabem no meu mundo, infelizmente”, é o que se pensa quando se sai caminhando desse jeito).

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