quinta-feira, 28 de março de 2013

Série de Haikais


(Hai)cai de ponta n'alma

Pontas de facas,
n’alma como palavras
pontiagudas.

(Hai)cai dos olhos

Olhar alegre,
lágrimas de verdade:
amor infantil.

(Hai)cai a noite.

O dia vai ao fim,
ela chega, morena,
e cai sobre mim.

terça-feira, 12 de março de 2013

Como se escreve (ou O sonho caiu no conto).




A
   P
      A
         L
            A
               V
                  R
                     A
                         cai,
e arrasta com ela o sonho,
que já existia
antes da palavra,
mas que não caia
por que a  palavra
não existia,
e depois Dela
                         cai
                                o
                                    S
                                       O
                                           N
                                               H
                                                   O,
                          N   e   l   a.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Estória de um destino a dois



Desde o momento em que trocaram as primeiras palavras, as palavras que são ditas com os olhos, souberam que seriam o destino um do outro. Souberam disso e a partir de então a única angústia que atormentava cada um dos dois corações era que não sabiam o momento certo em que se encontrariam de verdade e superariam aquele êxtase metafísico. Ele escrevia e trocava, nas noites, seus versos e poemas por possibilidades de consumir a noite no que quer que lhe parecesse divertido, e ela não perdia uma oportunidade de trocar as sucessivas diversões vazias de suas noites por qualquer coisa escrita de mais poético e versejado que lhe aparecesse.
Agora, em meio ao beijo encarnado que de cada um se alimentavam, ele pensava em quanto já a amava, e que ela não levava (nunca levara) essas coisas muito a sério, e em como ele abriria os olhos e veria os olhos dela ainda fechados por vários segundos (aproveitando aquele prazer na própria escuridão particular) e se sentiria bem por isso, e depois pensaria na pouca afeição cardíaca que ela tinha por ele, que só era pouca porque ele imaginava isso e comparava com o amor dele por ela, e segundos após, pensaria e iria lhe dizer que gostaria de ter a conhecido muito tempo antes, que ela não tivesse ninguém mais além dele na vida, que ele fosse único e incomparável para ela, e pensava num jeito de fazer a história da estória deles, assim. Ela pensava que quando abriria os olhos veria ele a olhando com aquele olhar que parecia idolatrar a sua pele e o seu rosto e seus olhos, e saberia novamente que ele sim, era merecedor de sua dedicação amorosa, que ele, com aquela sensibilidade particular, havia conseguido ser o que ela procurara por toda a vida, e interrompeu carinhosamente o beijo e disse à ele:
- Queria ter conhecido todas as pessoas possíveis antes. Assim, eu teria sempre a certeza de que ninguém mais além de você é a pessoa que procuro.
Ele não conseguiria ouvir aquelas palavras se não fosse com o coração, e assim, sentiu-as com certo impacto pontiagudo. Confundia-se se perguntando “onde estaria a pureza do amor?”, e não se conformava com tudo aquilo que lhe parecia libertinagem. Tentou acalmar-se por alguns segundos, para tentar reorganizar as ideias sem rancor. Pensou, como pensava com frequência, que apenas ele tinha o dom supremo do amor, e pensando nisso, surgiu-lhe na boca a frase que disse à ela:
- Nem você sabe o quanto eu gosto de você, e por isso, farei com que não me conheça quando nos conhecemos, farei com que seja depois, quando já quiseres me conhecer e já estiver cansada de outros conheceres inúteis.
Ela olhou-o com um leve sorriso, daqueles que se dão quando se demora alguns segundos para entender o que foi dito. E depois sorriu, já um sorriso de quem entende a brincadeira e o riso dizia “mas já nos conhecemos, não há como isso acontecer”. Mas ele havia dito a sério, e da mesma forma, continuou:
- Esqueceu que sou escritor? Posso voltar no tempo e voltar o tempo. Posso voltar ao tempo que nos conhecemos e fazer não nos conhecermos quando nos conhecemos.
Ela, que fechara o riso quando ele reiniciou a fala, mirou-o diretamente nos olhos, era um olhar patronal, um olhar que o repeliu alguns centímetros, um olhar de poder, como são os olhares femininos quando as mulheres concluem que é hora de usá-los, como se elas soubessem que possuem este olhar desde o nascimento, mas que é preciso guardá-lo para alguns momentos apenas na vida, como se fossem uma reserva numerada e finita e agora era um desses momentos em que ela julgou e concluiu que deveria usar, e olhando-o assim respondeu:
- Não, não pode. Nenhum pode. E sabe por quê? Por que os escritores dependem dos personagens e não o contrário. As personagens é que decidem o rumo da estória, os escritores apenas escrevem depois o que elas querem que seja escrito.
- Mas os personagens são criações dos escritores...(disse ele já com a convicção abalada).
- Não está entendendo. – interferiu definitivamente ela – É exatamente como te falei, e não vai conseguir fazer isso, por que eu sou a personagem.

quinta-feira, 7 de março de 2013

8 de março - Atira, PM!



Eu me nego! Não me referirei a vocês como “filhos-da-puta”. E não farei isso porque tenho muitos motivos para acreditar que as mães, mulheres que são, em nada são responsáveis por isso em que vocês se transformaram. Não vou tirar a responsabilidade que só vocês têm sobre vocês mesmos e transferi-la aos seres progenitores, aquelas que dão à luz os bons sentimentos do mundo. Por isso, não vou transfigurar o desprezível conceito que tenho sobre vocês, hoje, na palavra “filhos-da-puta”.
Sei que todos vocês tem, tod@s temos, alguma mulher sem a qual, efetivamente, não se poderia viver. Então, neste dia, peço-lhes que atirem, a queima-roupa mesmo, aproximem-se bem e ofereçam na cara dessa mulher uma flor. Se preciso for, façam um treinamento, como esses de tiro-ao-alvo que vocês tanto se dedicam, pois todos sabemos que não é uma tarefa fácil, é algo que necessita de muita coragem para qualquer homem da posição de vocês.
Atire, atire uma flor! Mas, cuidado. Ela vai sair quente, como uma bala, quente como só este gesto cálido pode ser. Vai deixar vestígios, não de pólvora, mas de pólen, em suas mãos, e não precisará perícia investigativa alguma para detectar estes vestígios, pois percebe-se facilmente, na cara, as mãos que carregam restos de pólen e de pólvora.
Ah, tira...atira! E depois pode sair carrancudo. Pode, porque não é a sua carranca de madeira que é importante: o importante é o gesto. Antes ou depois de atirar, a sua cara não importa, o que importa é que você atirou, e sempre quem recebe o faz com surpresa. Quem recebe olha pra você e vê aquilo na sua mão, e mesmo vendo o movimento de apontar que é feito em direção ao próprio rosto, pensa “não acredito que ele vai fazer isso?”, e aí você faz. Parece dramático, mas você consegue. Saca, aponta, e oferece a flor na cara incrédula dela.
Pode ser que aconteça de quando, de noite, você for dormir e deitar a cabeça no travesseiro, o sono se dissipar e os pensamentos girarem em torno disso. Fique tranquilo. Isso é assim mesmo. A primeira vez é sempre complicada, você pensará no que os outros podem pensar, se alguém viu, e o pior, se alguém registrou a cena. É normal, depois você se acostuma e vai querer sair fazendo isso todo dia, a qualquer hora, sempre que encontrar as mulheres que considerar especiais.

Atira! E não pense nas consequências, apenas atira uma flor. Iria sugerir que isso te faria bem, mas, pensando melhor, creio que você saiba como isso é, saiba como é fazer isso. Afinal, você não é um filho-da-puta. Eu não vou me referir assim a vocês. Sua mãe não tem nada a ver com isso que você se transformou. Isso é responsabilidade apenas sua, então, seja corajoso como se deve ser nessas horas, tome essa atitude sozinho. Atira, atira logo!