sexta-feira, 26 de abril de 2013

Fragmentos do desaparecimento de Edgar Allan Poe



Como em diversas e gradativamente mais constantes outras noites de sua vida, estava sentado a uma mesa alheia, solitário, bebendo mais gim para afogar o próprio estado de embriaguez. Não sabia mais quantificar o tempo que passava com essa única atividade diariamente, pensando sobre como a vontade de embriagar-se lhe esvaziava de quaisquer outros pensamentos, e não concluindo nada, retornava ao pensamento inicial. Numa dessas inconclusões, pede ao garçom que lhe auxilie, servindo-lhe outra dose, e é neste momento que, com desconfiada percepção, ouve seu nome pronunciado numa voz de friccionada rouquidão, a curta distância.
Virou-se lentamente e viu na mesa posicionada exatamente as suas costas, aquele corpulento ser vestindo smoking preto e um chapéu escuro que lhe cobria os olhos. Ainda pode ver suas mãos, que vestiam luvas brancas, baixarem o jornal que a pouco escondia-lhe a cara, e ouviu a mesma voz novamente pronunciando seu nome:

- Sr. Edgar Allan Poe, i presume!?

Como se não bastasse a precária iluminação do bar, uma espessa fumaça de charutos tornava o ambiente embaçado e pesado (e isso lhe fazia recordar uma outra situação esfumaçada), e os olhos alcoolizados apertaram-se para perceber que a grande mancha branca que via no centro daquele indivíduo não era outra coisa que a camisa que usava por baixo do casaco, e a outra, escura, no rosto, o seu bigode.

- Desculpe-me, mas, o Sr. me conhece? – respondeu.

- Obviamente. Ninguém mataria um gato de forma tão literal como o Sr.

Franziu a testa perguntando-se sem falar se havia mesmo ouvido aquela frase. O garçom chegou com sua dose e essa distração confundiu-lhe ainda mais. O outro soltou segurando um leve riso, e convidou-lhe para que se sentasse a sua mesa, que ele lhe pagaria uma bebida. Confuso, pegou o copo que ainda estava cheio e sentou-se com o desconhecido, e tentando dar um rumo esclarecido aos pensamentos, disse-lhe:

- Olha, o que acabou de dizer não responde a minha pergunta. E também, não faz sentido algum. Mas, em primeiro lugar, quem é o Sr.? Depois retornemos à sua fala anterior...

- Pode me chamar de Investigador Literário.....isso responde a sua pergunta, Sr. Poe?

- Investigador Literário? Como assim?

- Há muito estou lhe observando. Mas, por hora, não se preocupe, não há nada de mais.

- Espere! Você citou o gato. Saiba que meus problemas judiciais já foram resolvidos. Estou tentando esquecer aqueles assassinatos ainda, mas não devo nada à sociedade.

O outro soltou um grande riso com um corte brusco, como se fosse previamente determinado o tamanho e o tempo do riso para essas situações, e depois lhe exclamou seriamente:

- Obviamente. Até porque não cometeu crime algum!

Estava ficando mais confuso a cada palavra a mais que ouvia, mas ao menos agora, poderia devolver-lhe uma frase segura, com certeza do que estaria falando:

- Mas eu matei, sim, aquele gato preto e a minha mulher! Se de fato me observa, como afirma, deve saber muito bem disso!

O outro fez sinal para o garçom servir bebidas para ambos e recostou-se confortavelmente na cadeira.
- Ah...Ed, Ed... – disse-lhe com piedoso despojamento – Você nunca ouviu nada sobre o felinocentrismo religioso?

- O que? – respondeu perguntando o “Ed”, nem importando-se com a intimidade não autorizada com que aquela aparição acabara de lhe tratar, e já imaginando-se sonhando ou louco, tentando ver os olhos que olhavam-no por baixo da aba do chapéu.

- Pois bem, vou lhe falar sobre isso e tentarei ser sucinto. – disse o outro, e iniciou uma longa fala.
“...é muito parecido com o antropocentrismo, mas, tudo o que existe é para os gatos, foi criado para eles, por um Todo Poderoso Gato. Há demônios e anjos também. A diferença mais notória entre as teorias é que, para os humanos, todos os outros seres são passíveis de serem demonizados em igual medida, e para os gatos, essa medida é levada em maior escala para os humanos especificamente. É um ponto de vista interessante: induzem ou permitem que os humanos construam o seu suposto mundo para aproveitar-se disso posteriormente, não precisando preocupar-se, e menos ainda ocupar-se, com moradias, comidas, entre outros privilégios que gozam sem esforço. Deter o poder sobre a própria liberdade, deixar o recinto quando bem entender, assim como permitir que o acariciem quando quiserem, são alguns dos exemplos que corroboram com a tese felina. Mas, principalmente, submetem-se em algumas ocasiões visando instigar a imaginação criativa dos humanos, pois se não o fizessem, acreditam, que eles sucumbiriam na própria imaginação inativa...”

O garçom chegou com as bebidas e as pôs em frente aos dois, diferenciando-as, o gim para um e o café-com-leite ao outro.

- Você está bebendo café-com-leite aqui no bar? – estranhou Poe.

- Pra falar a verdade, é leite-com-café, apenas um pouco de café. Mas perdoo-o, sei que é o costume. – e continuou – Bem, eles controlam tudo ao vosso redor, entende? Inclusive, apropriam-se das vossas famílias quando lhes convém...

- Espere! O que quer dizer com isso? Não digo que não perdi o controle em certo momento, mas, eu sei o que aconteceu lá em casa.

- Não, não sabe. Você estava sempre embriagado Sr. Poe. Não se lembra?

- Ora...sim, isso eu lembro...mas, então, o que aconteceu?

- Exatamente isso, Ed. O Sr. estava (e diga-se de passagem, ainda está) embriagado, sempre. Chegava em casa e ia escrever as suas literaturas. E nelas descreveu a história com o gato preto, o Plutão. Sua embriaguez e sua loucura literária fizeram com que não percebesse que, aos poucos, os dois foram desaparecendo.

- Quer dizer que os dois eram, ou são (sei lá), apenas personagens do meu conto?

- Ed, Ed...não seja tão presunçoso, meu amigo. Já esqueceu-se que isso tudo pode ser propositalmente a intenção do gato?

- O Sr. está insinuando que os dois, então, podem ter.....algo em particular?

- Enquanto o Sr., Mr. Poe, escrevia as suas maluquices, é possível.

- Mas se isso for verdade, o que você investiga em mim? Posso saber?

- Pode, obviamente. É que há uma indefinição sobre o destino do outro gato preto, o segundo, que o Sr. adotou após ter matado o primeiro. Não considera isso misterioso, Sr. Poe?

Foi este o momento em que solicitou, de forma pouco solicita, que o garçom lhe trouxesse uma garrafa inteira. Quando este lhe trouxe, perguntou-lhe se percebia algo estranho ou diferente ali, na sua mesa ou ao redor, alguma presença incomum, ou alguma atitude atípica nele próprio, e ouviu que estava tudo como em todas as noites, alguma confusãozinha aqui ou acolá, porém, nada demais. Agradeceu o serviço e a resposta, embicou direto da garrafa alguns goles, e dirigiu-se ao diálogo novamente:

- Esclareça-me, por favor. Tudo não foi apenas a minha estória? Você mesmo afirmou há pouco...

- Calma com as interpretações, Ed. Eu não afirmei nada, apenas expus os fatos conforme uma possibilidade baseada em uma teoria...

Edgar Allan Poe, por mais incrível que possa parecer, perdeu completamente o senso da Razão, e confundindo-se ele próprio enquanto ele, com ele próprio enquanto ele(escritor), esbravejou sua inocência que deveria servir para ele em todas as formas:

- Então escute bem agora: eu não matei ninguém, aquilo tudo é apenas um dos meus vários contos! Você deve compreender! Eu não fiz nada para nenhum deles!

O Investigador ouviu os gritos e viu os cuspes que voavam da boca carregando as palavras que ouvia quando as bolhas estouravam no ar. E quando Poe cessou a fala e bebeu mais alguns goles (ou cessou apenas para beber mais alguns goles), recuperou seu aspecto investigatício e cético inicial, e lhe falou com a calma que deveriam ter os escritores ao falar sobre seus personagens:

- Está certo, Sr. Poe, está certo. Acredito que não tenha matado nenhum dos envolvidos, haja vista a veemência das afirmações. Porém, devo lembrar-lhe que sou um Investigador Literário, e, como tal, vou insistir em uma pergunta, com todo o respeito: o que aconteceu ao segundo gato preto?

- Olha, Sr. Investigador, na verdade, no conto, o segundo gato é o mesmo que o primeiro. É uma reencarnação diabólica do gato preto original. Ele desapareceu exatamente porque o original reapareceu para me assombrar e, de certa forma, indicar o meu crime.

- E vem o Sr. novamente com seu usual entendimento unilateral, demonizando tudo que lhe convêm.....e também, se é mera literatura como acaba de afirmar, não seria necessário buscar explicações paranormais. O Sr. me parece um tanto confuso. Mas, de qualquer forma, já ouvi o bastante.

O Investigador levantou-se lentamente, deixou sobre a mesa uma quantia em dinheiro que daria para pagar a conta de ambos e ajeitou o cinto da calça como quem termina algo que se propôs a terminar. Allan Poe olhou-o não compreendendo, nem isso e nem tudo que ocorrera anteriormente, e interferiu na saída dele antes que esta se realizasse:

- Mas o Sr. vai saindo assim? O que é isso? O que quer dizer com “já ouvi o bastante”?

- Já ouvi o bastante, Sr. Poe. Realmente, após passar por esse trauma do gato preto, o Sr. ainda não estava apto a retornar ao mundo da literatura, e muito menos reincorporar o seu personagem de Edgar Allan Poe. Cuidado, o Sr. estava muito embriagado – respondeu e vagarosamente, enquanto dizia, levantou a aba do chapéu escuro que lhe cobria o rosto, e então Edgar Allan Poe pode ver, imóvel e atônito, a piscada de olho que lhe deu com o único olho que tinha – e ainda está muito embriagado, Sr. Poe. – terminou, retirando-se.

A noite estendia-se e deixava para trás o seis de outubro de mil oitocentos e quarenta e nove.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Um par de almas



Apesar de terem estado juntos por toda a vida de cada um dos dois, havia uma coisa que ela guardava por perguntar, que desconfiava desde muito tempo, que ficava como uma dúvida que nunca era esquecida completamente e que às vezes voltava e lhe perturbava os pensamentos. Agora, depois de mais de trinta anos de companheirismo cotidiano, sentia que devia perguntar. Os cabelos já grisalhos e a fragilidade física lhe ambos, pareciam lhe reforçar a opinião sobre aquilo, e achava que neste momento ele haveria de admitir.
Sempre tiveram um cuidado extremo um com o outro, sempre mesmo, e principalmente da parte dele, era um cuidado que chegava a ser ingênuo em relação a ela, cuidado de quem por algum motivo imagina que a outra pessoa depende desse cuidado, senão faria coisas que se feriria a si próprio e que só teria essa noção no futuro, e aí sobraria os arrependimentos e a autocomplacência por não ter tido ninguém para lhe cuidar na ocasião. E ela recebia aquilo como quem recebe a própria vida das palmas das mãos de alguém, e adorava, e apesar disso, sempre pensava que aquilo tudo não era e nem poderia ser tão normal assim, que era incomum e raro de um jeito que só as coisas que não existem realmente podem ser.
A primeira vez que desconfiou foi muitos anos antes de concluir que as almas deles vagavam juntas e de mãos dadas há muitos e muitos tempos mais do que apenas aquele tempo de vida carnal que estavam experimentando. Foi quando ainda iria fazer nove anos na semana seguinte e caiu brincando no intervalo da aula e ele, que já tinha feito os seus nove anos dois anos antes, apareceu como quem aparece sabendo que precisa aparecer naquela hora, e ajudou-a. E ela percebeu que sempre poderia se machucar e brincar do que quer que fosse, que se fosse arriscado, ele estaria por perto para isso, para lhe ajudar quando precisasse, e foi assim que sempre aconteceu quando aconteceu algo à ela, e ela se sentia a pessoa mais segura do mundo por isso.
Mas, ainda assim, com toda a pureza que sempre rondou os dois quando juntos, ela estava já há algum tempo pensando que esse era o momento de lhe perguntar francamente o que muito lhe incomodava há muito tempo, que agora, com toda a experiência de vida que tinham, e a confiança e o respeito, ele não teria como e nem porque não lhe responder de forma sincera. E num dia em que tomavam café-da-manha lhe pediu que alcançasse o queijo e pegou-o na mão, segurou os dedos dele que também seguraram os dela, e olhou-o nos olhos diretamente – e eles estavam brilhando, como sempre estiveram – e sem fazer prólogos e contextualizações vagas lhe disse:

- Agora já pode me dizer, querido. Onde e como esconde as suas asas?