domingo, 19 de maio de 2013

As estátuas não se movem




A quantidade de aniversários que já possui e que mostra nos dedos são muitos, é o que pensa, sem se dar conta de que ainda são necessários apenas todos os da sua pequena mão esquerda que parece ser de pano e recheada de algodão, enquanto o que lhe oportuna com a pergunta já não tem mais dedos suficientes para mostrar a sua idade. Observa toda a alegoria ao redor, que preenche as paredes com um colorido que joga aos seus olhos mais que as míseras duas dimensões que lhe incomodam quando põem-na sentada na frente da televisão e insistem em que fixe a atenção naquela caixa sem vida. A música que toca e ressoa alto lhe faz lembrar de algo – e não é exatamente a música, são apenas os toques nas cordas de um violão que também compõem a música – e ela se esforça para descobrir o que é. Há muitas outras crianças que gritam e riem bastante, e brincam de várias maneiras, e numa dessas brincadeiras uma das crianças ganha o poder de congelar, de transformar em estátua qualquer uma das outras com apenas um toque de sua mão, enquanto uma outra, e apenas uma também, tem a capacidade de descongelar a estátua com o mesmo toque de dedos, mas isso não a interessa, não a atrai, e ela não entende porque as crianças congeladas ficam imóveis a espera do salvamento se no fundo sabem que não há poder algum nisso tudo, e nem essa e nem as outras brincadeiras lhe interessam. Está sentada próxima aos outros, mas não dá atenção a ninguém, e fica conversando com as tranças, as duas tranças que tem em cada uma amarradas em laço uma fita vermelha e que caem sobre seus ombros, e sempre coversam com ela sobre coisas que ela não ouve de mais ninguém, e ela vê os balões pendurados em uma das paredes e imagina que eles poderiam levá-la até aquele pedaço de lua que aparecia no céu em pleno dia, e não entende como nada disso não interessava a mais ninguém.
Agora está numa sala, que de tão cheia lhe parece vazia. Ela vê que todas as quatro paredes estão tomadas de coisas sem conteúdo, em todas há informações opacas penduradas, como molduras em que a tela oscila e perde-se nas próprias tintas e não deixa que nada seja concluído de suas formas em deformidade constante. Todas as cadeiras, fixas, cada uma em seu lugar especificamente exato, flutuam sem se mover e sem deixar que todos que as ocupam possam mover-se e movê-las, e as coisas das paredes também flutuam apesar de estarem penduradas, assim como os lápis e os livros, e não permitem que nada seja feito além do que foi previamente programado, que nenhuma palavra seja desenhada fora dos limites das palavras que já estavam escritas anteriormente, que nenhum traço seja dado que não seja passado por cima dos que já estavam talhados nos livros e cadernos de todos há muito tempo, por alguém que já os havia feito e que não permitia que fossem feitos de outra forma. Há algumas falas exageradas que contam estórias de grandes homens feitos pela história aos quais os homens que fizeram as estórias lhes atribuem grandes feitos, e ela acha tudo isso muito divertido, mas isso não é permitido ali, e então ela prefere direcionar um olhar vago para a janela e um assobio de vento lhe chama e uma percussão de folhas da árvore do pátio arranca-na do corpo para uma distração saudosista.
Desta vez a sala a faz pensar em um imenso aquário em que os peixes caíram na rede logo que nasceram e foram criados para serem jogados ali quando estivessem prontos para poderem ali estar, ou num grande copo d’água parado sobre um balcão velho e empoeirado, e que a própria água já está empoeirada e ninguém mais quer e nem vai beber, é apenas para estar ali, para que todos vejam como algo velho e empoeirado e sintam asco, e ao mesmo tempo saibam que sempre será necessário, que sempre precisarão daquele mesmo copo de água sujo e velho. E sente que a grande mesa oval esmaga a todos que sentam-se ao seu redor, e no pouco de parede que resta além das vidraças perfiladas, vê nos dois quadros que a observam que nem mesmo os mortos conseguem ou ao menos tentam falar de todos os assuntos inventados com demasiada seriedade sem que sejam ditos na sua cara enquanto os olhos mirem seu busto, e tenta manter um mínimo de atenção naquela encenação profissional toda que tenta transformar qualquer alma em cifras, quando sente uma cortina de água tremular atrás de suas pálpebras. Ela ouve – e só ela ouve - um ruído seco que não se prolonga a mais que ele mesmo, olha para uma das janelas e vê um pombo e ouve novamente o mesmo ruído quando ele acerta novamente o bico no vidro, e em seguida a vê mudando bruscamente a direção e a intenção de seu voo e sumir para onde mais quiser que não haja vidro, e perder-se de seu campo de visão mas não de seu pensamento, que ali, onde ela não estava mais além de fisicamente, lembrou-se de quando os dias amanheciam e ela ainda era muito pequena, e acordava sempre no período do próprio amanhecer, e ouvia os pássaros cantando muito próximos da sua janela e ela pensava que eles eram violeiros e que o som que faziam era feito nas cordas bem esticadas de violões que ela imaginava deixando-se enganar pela imaginação que estavam nas asas de cada um deles, e sempre tinha o barulho dos chocalhos que as árvores seguravam nas pontas dos galhos para acompanhar a música, e compreendeu porque todas as outras coisas inventadas e feitas por todos são tão desinteressantes para ela, mas não entende como aquilo tudo interessava tanto aos outros.

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