quarta-feira, 5 de junho de 2013

Interno frio de externo


De que servem todos estes aparatos,
cobertores velhos, todos os retalhos
de vida, de tempo e de espaço,
se sou eu o próprio frio epiderme
que arde sobre todos os concretos
enquanto a cidade dorme;
se sou eu o som dos passos
de algum ou qualquer sapato,
calçado apertado,
sobre a umidade de alguma calçada;
se há uma rua entre as duas,
se há esta rocha antropizada,
este rio imóvel de frio,
que tira do meu alcance
os passos frios da outra margem,
mesmo estando ao meu lado;
se a névoa fina dos meus olhos,
a que paira no ar gelado,
deixa o quarto embaçado,
deixa os gatos nos telhados
e os pés molhados,
não me deixa ver no outro lado, deitado,
o espectro orvalhado
que não sai do meu olhar
e petrifica quando tocado;
se não vejo estando me olhando,
não sou o frio que sinto me tocando,
se o que vejo, toco e sinto,

não sinto me sentindo.

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