sexta-feira, 5 de julho de 2013

Conflitos e costuras atemporais


 
Depois de anos e anos vagando por tempos e lugares distintos, desenvolvendo as mais variadas atividades, comerciais ou não, estabelecera-se ali na pequena cidade haviam poucos anos mais de três décadas, e mantinha desde então o ofício de alfaiate. Quando iniciou os trabalhos não era muito íntimo da qualidade que mereciam os pontos, mas também não era de todo estranho, já que dentre as suas andanças mundanas tivera, como mascate por muito tempo, vendido tecidos e por vezes realizado costuras rústicas pelas remotas e mínimas aglomerações civis do vasto território seco ou alagado por onde estivera.

Era vivido. Havia passado por situações boas e ruins, de todas as formas que as boas situações convidassem e todas as ruins armassem. Mas não estabelecera-se ali por cansaço da vida, aliás, ao contrário, foi por juventude. Uma alma jovem, infantil, o arrebatara da própria vida e, como imã cardíaco, atraía-o até não ter mais forças para resistir, e desde então, seu espírito aventureiro sentiu leucócitamente que não tinha forças para lutar contra aquela força e jogou ao alto a ideia de viver sem endereço. Amável, olhar puro, angelical. Poucos resistiriam.

Há alguns anos antes – muitos alguns anos – passava pelo grande alagado em sentido sul-norte. Havia sido uma grande vivência, apesar  da grande guerra que lhe cercava, e que cercava a todos por ali e envolvia todos os iguais das quatro nações diferentes que estavam envolvidas. Via vidas terminarem, e mortes, em alguns casos, enfim começarem. E vagava pela linha incerta e tão desviadiça quanto ele que servia como fronteira, que horas era barreira e horas  anfitriã. “O comércio sempre lucra com as guerras” era o que dizia ao menino, anjo em estrutura óssea, carnífera e sanguínea, e olhos brilhantemente jabuticabais. Foi ele quem o fez, não voltar, mas, ficar, por aquelas perdições.

- Vendia vida para aqueles desgraçados. Dava esperança para aqueles esquecidos das graças de deus. – respondeu ao neto.

- Mas na escola nunca falaram disso, dessa guerra que o Senhor me fala.

- Eles falam sim. Mas falam de outra forma. Só que tudo isso não importa. Sabe por que? Porque as guerras de verdade acontecem dentro de nós. – o velho explicava.

Contava que transportava, carregava, ou levava, como queriam, cartas e correspondências dos que guerreavam até o posto do norte, onde ficava o grande hospital das vítimas da guerras, e de lá encaminhava os transitáveis sentimentos aos destinos de cada um, e de lá recolhia os sentimentos escritos que chegavam e levava aos guerreantes distantes. Muitas delas ele mesmo  escrevia o que ditavam aqueles que não tinham noção alguma das transcrições sentimentais, e muitas delas ele mesmo escrevia e endereçava aos que não tinham ninguém que lhes tivesse enviado alguma carta. Com isso arrecadava mais do que consertando as botinas e os agasalhos dos soldados escravizados pelo frio e a umidade do relevo baixo e selvagem do centro do continente, que parecia não afetar-lhes tanto emocionalmente.

Foi ali, naquele ponto geográfico hospitalar e hospitaleiro, por onde corre o grande rio no imaginário de todos, que conheceu a índia que um dia lhe disse que ela não o estava deixando, e sim ele é que estava, porque ela sempre esteve ali e ele é que queria ir embora dali e viajar de novo do mesmo jeito como viera, ela apenas optava também pelo que sempre havia feito, e ele não concordou e nem discordou, mas não consegui virar as costas para a estrada que lhe chamava ao mundo novamente. Foi a única mulher que fez ele parar, estagnar em um lugar em algum momento da vida antes daquelas pouco mais de três décadas as quais estava, não coincidentemente no mesmo lugar, vivendo parado ali - única que lhe fizera ter tido saudade da própria vida. Era a índia a qual muitos anos depois soube pela boca do Negro que logo depois que ele havia partido, ela tinha tido uma filha e que depois esta também tinha tido uma filha, e que as duas, a índia e a filha, já haviam morrido na velhice de cada uma, e agora estava a filha da filha da índia vivendo lá solitariamente como vivem os que não tem passado, e por causa disso, menos ainda futuro.

Contava tudo isso ao menino enquanto o ensinava a costurar retalhos que depois de muitos deles costurados viravam colchas, e dizia honestamente á ele que as colchas que fazia eram muito boas, e o menino ouvia como se pegasse cada nova história e costurasse nas antigas, e no final de cada colcha que terminava ficava insatisfeito, e não conseguia acreditar fielmente nos elogios do velho, que sempre, ao término de cada dia, cada jornada de costuras e histórias, em meio a conselhos, como os de que os retalhos encaixam-se naturalmente e que se percebe o lugar de cada um quando se pega na mão, dizia ao menino que a vida era muito boa mas que o mundo não era muito bom, que via muitas coisas ruins pelos mundos onde viveu.

Conheceu o Negro, como só ele o chamava, muito tempo antes de ter passado por aquela região pantanosa em que a grande guerra se espalhava como a própria água que inundava tudo, e onde depois tivera conhecido a índia da beleza ancoradoura. Foi em um lugar muito distante dali, muito abaixo no mapa. Foi o primeiro lugar que quis chegar quando saiu dali onde falava ao menino agora, e deixou para trás a semente da saudade que brotaria depois nele onde quer que fosse. Quisera voltar lá porque gostava de acampar e dormir próximo da enorme fenda terrestre e, durante a noite, mesmo exposto as intempéries, conversar com as vozes que ecoavam dos paredões e ver o vento chegar para se aquecer na sua fogueira e carregar fagulhas do fogo pra onde iria depois. Uma noite deu abrigo á ele em seu acampamento, que também era um viajante e que estava com poucos recursos. Nessa época é que vendia tecidos, mas, tanto ele quanto o Negro passaram a ganhar mais saqueando os campos ensanguentados em busca de restos de artefatos de metais dos soldados caídos após as batalhas que se travavam lá no sul, décadas antes de ocorrer a outra guerra continental, e ambos sentiam vergonha dessa atividade mas sabiam que era o melhor que lhes era ofertado naqueles conflituosos tempos. Dizia que naquela noite em que o conheceu viu o olhar mais transparente, incolor, que viu em toda a vida, e que não era um incolor opaco e sim cheio de uma vitalidade que não poderia ter cor alguma para definí-la, e por isso mesmo nunca se conformou de saber por aqueles olhos, tempos depois, sobre a índia e sua filha, pois eles lhe falavam com certa reprovação, como se tranferissem culpa junto com a notícia, e o menino pensava que o velho poderia estar descrevendo o próprio olhar que carregava no rosto, pois era assim que via o olhar do velho, incolor e límpido, cheio de vitalidade, mas com algum rancor que parece ser impossível naqueles olhos.

Aliás, era aquele intenso brilho vital dos olhos do velho que impediam ao jovenzinho de lhe perguntar sobre alguma possível mágoa, e que também coagiam qualquer pergunta que fosse endereçada ao que não compreendia, ao incompreensível tempo que não passava para o velho, ou que passava em demasia. Queria poder ser direto e perguntar:

“- Se sou mesmo seu bisneto, como diz o Senhor, porque você está aqui ainda parecendo que terá toda a vida pela frente, e minha mãe, e a mãe dela, e a mãe dela, não estão mais?”

Mas não perguntava. Tinha receio de ouvir novamente que o mundo não era bom, que apenas a vida era boa mas que havia muitas coisas ruins nos vários mundos que podem existir na vida.

A última vez que viu o antigo amigo, disse ao bisneto, foi quando o ouviu dizer que havia estado ali e que soube da índia e da filha dela e lhe disse sériamente que havia deixado uma neta sozinha neste mundo que ambos sabiam o quanto poderia não ser bom, e então, sabendo que o outro também tivera conhecido a índia e também lhe tinha apreço, não o respondeu nada e decidiu voltar e procurar a moça que então passou a o atrair com o magnetismo líquido que corre nas veias de todos. Quando isso ocorreu, vendia enciclopédias na região das montanhas, as montanhas que estão antes de se chegar ao litoral, e por ali e em qualquer outro lugar do mapa em que cabiam os lugares que se comunicavam por conversas repassadas, já não havia guerra alguma, e as enciclopédias eram bem compradas porque as pessoas queriam saber onde estavam ocorrendo as guerras, já que o mundo havia se expandido e as guerras eram maiores, mas não se podia vê-las.

Quando retornou e conheceu a moça sentiu como se todas os caminhos por onde passou chegassem, eles próprios, agora juntos no seu peito, e não conseguiu a chamar de outra coisa que não fosse filha, o que ela aceitava, mesmo sabendo que era uma geração posterior a ela. Agradecia, sempre, a todos os deuses que conhecia e a todos os novos que lhe eram apresentados por ter tido a chance de passar alguns anos, mesmo que poucos, junto dela, que lhe lembrou desde o primeiro instante em que a viu, a índia, e fizera desde então a saudade que sentia se dissipar em abraços de ternura paternal ou adotiva, e que logo deixou para ele aquele pequeno tesouro alado que as vezes parecia uma arma que descarregava sobre ele todas as perguntas que existiam no mundo, querendo compreender todas as vidas que passaram e chegaram até a sua ainda jovem vida em poucas interrogações.

- Sim, era jovem, muito jovem. Tão jovem que até a própria morte estranha quando tem que buscar essas vidas. – dizia ao garoto, e via no rosto dele o reflexo de suas lágrimas.

“Doenças tropicais”, explicava, sendo que os trópicos em nada são culpados pelas vidas que se terminam cercadas de esgotos por todos os lados nas margens deste rio. Mas que se queria saber mesmo o porque, era que haviam alguns momentos em que as pessoas esfriavam, e que eram nesses momentos que as coisas ruins do mundo apareciam.

- E se fizéssemos uma enorme colcha com todos os retalhos e resquícios de coisas boas que existiram, e cobríssemos o mundo com ela? - disse lhe o menino.

E o velho respondeu:

- Seria perfeito, acalentaria todos os anseios que poderiam se tornar algo ruim...mas, nenhum ser humano tem a capacidade de costurar apenas bondades...

E depois secou o rosto e continuou algum afazer que inventou para desviar a atenção no que ele mesmo havia acabado de dizer, e o menino ficou pensativo, tentando traçar alguma relação possível entre o que havia acabado de ouvir e as suas colchas, as quais sempre que as terminava não se sentia satisfeito.

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