quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Me(n)tal





Quem forja os teus músculos?

Qual o Senhor de tuas ilusões?

Perdidas?

Fundem-se no metal que nos une;

Unem-se liquidas ao sangue;

Qual metal que guia os teus punhos?

E que abre a porta de onde saem os destinos?

Prontos?

Da fornalha sai mais um corpo incandescente;
Quais os músculos que tu forjas?
Qual o servo de tuas ilusões?
 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Imagem de estação no cerrado





 
 
vento vento vento vento
vento seco seco seco seco
seco ipê ipê ipê ipê
ipê com flor com flor com flor com flor
com flor no chão no chão no chão no chão
no chão seco seco seco seco
seco vento vento vento vento
 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

(H)aja poesia, engaja!

Três "haicais"/ou poesias concretas, envolvendo e desenvolvendo as classes trabalhadoras:
 



Feira de corda

acorda leva
na forca-de-trabalho
o corpo pesa




Esconde-esconde na fábrica

vendo você
escondo o que “mais valia”
atrás do quadro




Filosofia espiritual na roça

carpi dia sol
na cabeça inchada
de carpi dia
 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O delicado aroma adocicado dos tomates




Era a incontável vez que lhe perguntavam, sempre com a mesma tonalidade festiva na interrogação, a qual, por conta da empolgada situação, quase em nenhuma vez a deixavam responder, e isso ela sentia como o único saldo positivo entre os diálogos, interações e mútuos elogios que direcionavam sempre as falas desarmonizadas entre risos, para aquela mesma e fatigada indagação, e por fim, ao momento triunfal de não precisar respondê-la. Mas desta vez a pergunta soou perfumada e entrou nela pelo olhar, que mirava a panela avermelhada onde acabara de preparar o molho de tomates que acompanharia o jantar, e de repente desviou-se para dentro de si mesma quando ouviu a retórica “Mas diga, qual é o segredo deste seu molho delicioso?”.

- Não é nada, apenas alho e manjericão. – respondeu já com a trêmula visão de quem perde o foco no olhar e o mundo interno da pessoa expande-se.

Lembrou-se exatamente do dia em que chegava em casa da escola num dia comum em que o sol enchia de cor todas as coisas invisíveis que ela olhava no caminho e as cores das coisas enchiam de cheiro e aroma tudo o que ela passava a ver, era por volta do meio-dia, como sempre era o horário do retorno, e ela tinha onze anos, oito meses e dois dias, como só teve naquele dia.  Chegava e ia por fora da casa para os fundos, onde entrava pela porta da cozinha, onde sempre havia algo sendo preparado, e gostava de fazer isso para sentir que não estava chegando em casa e sim em alguma festa ou entrando numa aquarela. Ao passar sob a janela lateral ouvia os barulhos das frituras, a efervescência dos líquidos, os estalos dos temperos novos sendo colocados, e jogava com sigo mesma as apostas do cardápio. Mas naquele dia, ao aproximar-se da porta da cozinha, um aroma adocicado lhe invadiu a alma e ela não quis pensar em nenhum outro preparativo, em comida alguma, e fechou os olhos para sentir melhor o cheiro que desmanchava a casa em vapores brancos e transparentes, e pensou que aquele cheiro só poderia ser emitido de algo que não se pudesse tocar. A porta estava aberta e ela entrou vagarosamente, como manda o instinto quando adentra-se em algo desconhecido, e viu aquela mulher sentada sobre a mesa da cozinha, com o vestido levantado à cintura e as alças caídas sob os seios que ficavam a mostra, e entre suas pernas, em pé e de costas para ela, um homem sem camisa e com as calças lhe cobrindo os pés, e os braços e as mãos de ambos agarrando o corpo do outro. Viu os sais de suor que brilhavam nas costas dele, e demorou alguns segundos para reconhecer o rosto da mãe naquela mulher, pois nunca havia visto aquela expressão nela (e pensou rapidamente que ela parecia, como nunca antes, que estava viva!). Admirou a sintonia dos movimentos daquela cena por alguns instantes, e de repente o chiado do fogão lhe chamou a atenção, e ela viu-os na frigideira já se desmanchando em molho, e o aroma adocicado dos tomates agora lhe trazia novamente ao seu próprio universo, e ela afastou-se como os vapores para fora. No almoço daquele dia, ela sentia que tudo estava diferente – o gosto, o cheiro e as cores das coisas invisíveis. Almoçou comendo mais do que normalmente, e a leveza dos talheres e do sorriso de sua mãe lhe agradaram.

Toda a construção daquele momento, incrivelmente (pensava), lhe passara agora em todos os detalhes vistos ou sentidos, como nunca antes, e sentia-se euforicamente alegre com aquelas frações de tempo surreais.

 A voz emitida na sua frente acordou-lhe de sua realidade, e continuou a desinteressada pergunta:

- Tem algum segredo, ou é só o tal amor que vocês cozinheiros dizem?

Nunca esquecera aquele cheiro, e nunca sentia outro sem comparar com aquele e sempre concluir, rindo só, que todos os outros eram inferiores, por que todos os outros pareciam vir de algo que se pudesse tocar, mas não aquele adocicado aroma. Com o tempo, passou a senti-lo quando quisesse sentir, em situações em que nada ao redor lhe interessava, quando queria enclausurar-se em seus pensamentos e rir do mundo e de todos, ela simplesmente fechava os olhos e concentrava-se, e sentia-se novamente entre os vapores perfumados que levitavam mornos pelo ar. Nunca considerou que a sua paixão pela culinária transformara-se em profissão de fato, por que dizia que era um absurdo tentar pagar-se por algo que não se podia pegar ou tocar, e que o que ela vendia eram prazeres do corpo, totalmente palpáveis como o próprio corpo, mas, em todas as ocasiões em que cozinhava, preparava antes e deixava ali, ao seu lado, apenas para acompanhá-la, um pouco de molho de tomates, para lhe dar a desmaterialização necessária à sua paixão.
- Não. É só isso mesmo. E sal a gosto – respondeu timidamente.