quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O delicado aroma adocicado dos tomates




Era a incontável vez que lhe perguntavam, sempre com a mesma tonalidade festiva na interrogação, a qual, por conta da empolgada situação, quase em nenhuma vez a deixavam responder, e isso ela sentia como o único saldo positivo entre os diálogos, interações e mútuos elogios que direcionavam sempre as falas desarmonizadas entre risos, para aquela mesma e fatigada indagação, e por fim, ao momento triunfal de não precisar respondê-la. Mas desta vez a pergunta soou perfumada e entrou nela pelo olhar, que mirava a panela avermelhada onde acabara de preparar o molho de tomates que acompanharia o jantar, e de repente desviou-se para dentro de si mesma quando ouviu a retórica “Mas diga, qual é o segredo deste seu molho delicioso?”.

- Não é nada, apenas alho e manjericão. – respondeu já com a trêmula visão de quem perde o foco no olhar e o mundo interno da pessoa expande-se.

Lembrou-se exatamente do dia em que chegava em casa da escola num dia comum em que o sol enchia de cor todas as coisas invisíveis que ela olhava no caminho e as cores das coisas enchiam de cheiro e aroma tudo o que ela passava a ver, era por volta do meio-dia, como sempre era o horário do retorno, e ela tinha onze anos, oito meses e dois dias, como só teve naquele dia.  Chegava e ia por fora da casa para os fundos, onde entrava pela porta da cozinha, onde sempre havia algo sendo preparado, e gostava de fazer isso para sentir que não estava chegando em casa e sim em alguma festa ou entrando numa aquarela. Ao passar sob a janela lateral ouvia os barulhos das frituras, a efervescência dos líquidos, os estalos dos temperos novos sendo colocados, e jogava com sigo mesma as apostas do cardápio. Mas naquele dia, ao aproximar-se da porta da cozinha, um aroma adocicado lhe invadiu a alma e ela não quis pensar em nenhum outro preparativo, em comida alguma, e fechou os olhos para sentir melhor o cheiro que desmanchava a casa em vapores brancos e transparentes, e pensou que aquele cheiro só poderia ser emitido de algo que não se pudesse tocar. A porta estava aberta e ela entrou vagarosamente, como manda o instinto quando adentra-se em algo desconhecido, e viu aquela mulher sentada sobre a mesa da cozinha, com o vestido levantado à cintura e as alças caídas sob os seios que ficavam a mostra, e entre suas pernas, em pé e de costas para ela, um homem sem camisa e com as calças lhe cobrindo os pés, e os braços e as mãos de ambos agarrando o corpo do outro. Viu os sais de suor que brilhavam nas costas dele, e demorou alguns segundos para reconhecer o rosto da mãe naquela mulher, pois nunca havia visto aquela expressão nela (e pensou rapidamente que ela parecia, como nunca antes, que estava viva!). Admirou a sintonia dos movimentos daquela cena por alguns instantes, e de repente o chiado do fogão lhe chamou a atenção, e ela viu-os na frigideira já se desmanchando em molho, e o aroma adocicado dos tomates agora lhe trazia novamente ao seu próprio universo, e ela afastou-se como os vapores para fora. No almoço daquele dia, ela sentia que tudo estava diferente – o gosto, o cheiro e as cores das coisas invisíveis. Almoçou comendo mais do que normalmente, e a leveza dos talheres e do sorriso de sua mãe lhe agradaram.

Toda a construção daquele momento, incrivelmente (pensava), lhe passara agora em todos os detalhes vistos ou sentidos, como nunca antes, e sentia-se euforicamente alegre com aquelas frações de tempo surreais.

 A voz emitida na sua frente acordou-lhe de sua realidade, e continuou a desinteressada pergunta:

- Tem algum segredo, ou é só o tal amor que vocês cozinheiros dizem?

Nunca esquecera aquele cheiro, e nunca sentia outro sem comparar com aquele e sempre concluir, rindo só, que todos os outros eram inferiores, por que todos os outros pareciam vir de algo que se pudesse tocar, mas não aquele adocicado aroma. Com o tempo, passou a senti-lo quando quisesse sentir, em situações em que nada ao redor lhe interessava, quando queria enclausurar-se em seus pensamentos e rir do mundo e de todos, ela simplesmente fechava os olhos e concentrava-se, e sentia-se novamente entre os vapores perfumados que levitavam mornos pelo ar. Nunca considerou que a sua paixão pela culinária transformara-se em profissão de fato, por que dizia que era um absurdo tentar pagar-se por algo que não se podia pegar ou tocar, e que o que ela vendia eram prazeres do corpo, totalmente palpáveis como o próprio corpo, mas, em todas as ocasiões em que cozinhava, preparava antes e deixava ali, ao seu lado, apenas para acompanhá-la, um pouco de molho de tomates, para lhe dar a desmaterialização necessária à sua paixão.
- Não. É só isso mesmo. E sal a gosto – respondeu timidamente.

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