domingo, 29 de setembro de 2013

O amor só existe de dia







O amor só existe de dia

 
Estende-se a noite como o fazem os felinos de dia ao descansarem dela, em lentos e preguiçosos movimentos que parecem não querer sair de uma sonolenta madrugada, que intenciona-se incólume em seu disfarce de paredes opacas e meia-luz de um abajur que em alguma década passada teve certo charme estético, mas agora apenas contribui para o aspecto lúgubre com que o ar pinta o recinto com pinceladas de fumaça.

Afundado ao sofá, observa no copo que segura e sente que algo dentro de si mesmo estala e trinca junto com os cubos de gelo, e as gotas do lado externo escorrem e molham seus dedos, e se alguém mais estivesse ali naquela sala ouviria um sopro que carregaria a frase “porque fez isso de novo?”. As palavras, as interrogações e exclamações, saiam espaçadas por minutos , como se fossem concluídas após serem destiladas de turbilhões de outras palavras tragadas em vértice nos pensamentos, enquanto davam-lhe tempo para a bebida e o cigarro da vez. “Perdão, e vem me falar de perdão?! Desta vez não!”, esbravejou de forma que se alguém se avizinhasse ouviria plenamente, e não entenderia o contexto da frase, todo o restante que foi somente pensado, a lamentação posterior interiorizada, “porque não fica com as suas culpas e me deixa em paz com as minhas? Porque não enfia todos os perdões do mundo no cu?!”.

Aproximou-se da janela, abriu-a; a noite apresenta-se com seu silêncio ensurdecedor, aos gritos de socorro para salvar-se dela mesma em sirenes e badaladas catedráticas; os automóveis correm contra o tempo para saírem vivos a tempo daquela falha espaço-temporal obscura; as fechaduras trancam-se tentando não passar pelo inevitável portal que conduz tudo àquele mundo de medo que intercala as luzes; os cães acoam, acuados olham, caóticos e calculistas, e tudo ecoa no negro vácuo da madrugada; “desta vez não vou pedir perdão porra nenhuma!” disse olhando para um gato que flertava no telhado ao lado, e bebeu de uma vez só a dose já sem gelo.

Voltou-se à casa e aos pensamentos espirais do novo fumo, e depois, já cansado daquilo tudo, foi ao banheiro lavar o rosto e as mãos e olhando-se no espelho reconheceu-se atrás daquelas olheiras e da cara molhada, respirando fundo tentando pensar em tudo o que havia pensado durante toda a noite. Saiu do banheiro e voltou à janela, e viu que a manhã pintava suas mãos e seu rosto, e tudo o mais que enxergava, com suas matizes e maquiagens laranjadas, e pensou “bem, agora ao menos já posso pensar sobre o amor”, e sentiu vontade de sair, caminhar e tomar café.

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