quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A ilha solitária que rodeia a multidão


 
 
A ilha solitária que rodeia a multidão
 
 
Amanhecia o dia e aparecia o sol nos retrovisores dos automóveis que ouviam de seus rádios as previsões do trânsito para mais aquele dia que prometia nuvens carregadas para a cidade – com chuva ou não. Os semáforos dirigiam a vida de todos e raramente permitiam que alguém pensasse em outra coisa que não fosse nos seus arcos de cores (que não estimulam a íris de ninguém) e nos segundos que autoritariamente brincam de tirar da vida de cada um que forma fila para aquilo.

 A imobilidade do trânsito convida os olhos a saírem de foco e levarem consigo os pensamentos a situações aparentemente absurdas de serem pensadas ali, naquela situação, e ela fecha os olhos e vê a velha estrada de chão esburacada; o caminho de volta a sua infância – ouve o rádio dizer e logo repetir a hora, lembra que no seu celular estarão contados cinco minutos mais do que os radializados e que provavelmente chegará uns dez minutos atrasada – e as nuvens de poeira que elevam-se da estrada agora não desbotam o verde das folhas nas suas margens e ela, a estrada, se movimenta ininterruptamente em ondas como um tapete que é sacudido, mas não expele o seu carro, aliás, aquilo tudo é bastante divertido para ela e também para todas as várias outras pessoas, todos jovens como ela, que estão no carro, e que ela não sabe quem sejam exatamente pois não consegue tirar os olhos do caminho e apenas ouve os gritos e gargalhadas misturadas, e olha para as mãos e percebe que o volante que segura não tem influência alguma sobre a direção do carro, que parece guiar-se por conta própria – ou pela estrada.

Os olhos abrem-se e ela está lá, no mesmo lugar, apenas com o automóvel virado em sentido oposto ao que de manha estivera exatamente ali, naquele ponto da mesma avenida, e o semáforo que naquele período estivera as suas costas agora põe um ponto vermelho no centro de cada um dos seus olhos abertos – e nos olhos de todos que estão ao seu redor olhando-o fixamente como que por adoração. O rádio diz que o transito está péssimo e aconselha que aquele não é um bom momento para se sair de casa dirigindo. A penumbra através do para-brisas cansa os olhos e as pálpebras caem lentas juntas com a noite, e dentro da noite dos olhos também é noite e há varias crianças além dela segurando candeeiros com velas acesas pois acabara a energia elétrica. Brincavam de esconde-esconde, sendo que todos escondiam-se e todos também procuravam ao mesmo tempo, e assim, brincariam a noite toda e não haveria vencedores ou perdedores. Ouvia cochichos e risos muito baixos, quase sussurrados, de todas as outras crianças, mas não se podia ver o rosto de ninguém na escuridão, e pensou que pudessem todos estar querendo apenas encontrar ela, mas depois percebeu que também fazia o mesmo. Pensava que reconhecia as vozes e por algum tempo se esforçava para concluir de quem seria a que era ouvida no momento, mas nunca conseguia. Quando as velas já se esvaiam junto com o arrefecimento da cegueira noturna, estavam todos muito cansados, e enfim as chamas escassas de cada candeeiro se juntaram e numa só elevou-se em sol desde eles até o céu, e ofuscou o interior dos olhos que permaneciam fechados.

As cortinas de pálpebras afastam-se e ela está lá, no mesmo lugar, apenas com o automóvel virado em sentido oposto ao que no anoitecer estivera exatamente ali, naquele ponto da mesma avenida, e ela vê em amarelo o que por frações de segundos pensa ser o sol, mas logo percebe que o sol brilha em seu retrovisor e que aquela luz que agora torna-se rubramente incandescente é o semáforo, que no último passado anoitecer estivera as suas costas. O rádio diz que poderá chover, o que para as previsões sobre o transito é uma certeza de complicações para a locomoção automobilística, e num intervalo de cinco minutos diz a “hora certa” três vezes para auxiliar todos a saírem de casa a tempo de seus tempos. Ela sente-se cansada embora ainda seja cedo, e encosta a testa ao volante; num piscar de olhos está sentada à uma mesa de restaurante com os talheres postos a sua frente e mais uma colher na mão. Há mais quatro pessoas além dela na mesma mesa e ela os conhece mas não reconhece, pois são todos mais velhos, e todos levam nas rugas e marcas do rosto expressões tensas e incomodadas. Olha-se na colher que tem na mão, mas também não se reconhece no reflexo, e pensa que é porque o reflexo está invertido e invertendo a colher se vê melhor e percebe que há, sim, ela atrás das próprias rugas e marcas do rosto. Ouve protestos e reclamações dos outros e quando tira a colher da frente dos olhos os vê sentados em suas cadeiras de cabeça-para-baixo, e um deles fala “além de nos obrigarmos a vir aqui, você ainda piora as coisas?”. O garçom chega com a comida numa bandeja; o prato é uma azeitona de tamanho razoável (haja visto que estão em cinco, ponderou sua amiga ao fazer o pedido) com queijo ralado em cima, e todos estão com os garfos e facas em punho para a partilha exatamente igualitária. Ela diz que como está sentada corretamente, se preferissem, poderia servi-los, e ainda mais, ficar com o caroço, só pra sentir o gosto, mas todos protestaram veementemente, e ela tentou justificar dizendo que estava com a colher, e então percebeu que todos também já empunhavam colheres e que viravam-nas de cabeça-para-baixo. Mas um deles se exaltou e virou o reflexo do garçom e a azeitona caiu sobre a mesa fazendo respingar pedaços de comida por todo o lugar. Ela baixou a cabeça e começou a chorar e o garçom lhe estendeu um guardanapo para secar as lágrimas.

 Ergueu o pescoço e abriu os olhos, e está lá, no mesmo lugar, apenas com o automóvel virado em sentido oposto ao que de manhã estivera exatamente ali, naquele ponto da mesma avenida, e ela e todas as outras pessoas dos outros carros se assemelham a coelhos com desconfiados, fixos, e vermelhos olhares para o semáforo. O rádio afirma que haverá precipitação pluviométrica a qualquer momento, e que não poderá haver precipitação alguma por parte dos motoristas senão a situação do transito se agravará, diz a hora e diz que aquela não é uma hora apropriada para sair de casa quem for dirigir. Recosta-se ao banco, respira fundo e fecha os olhos. O celular toca e ela atende para ouvir a voz que sai do aparelho lhe dizer “Oi, tudo bem? Vamos sair? Beber algo? Comer algo? Conversar? Jogar? Passear? Me ligue, tchau!”, e ela sai do carro e sente os primeiros pingos da chuva explodirem no rosto, volta ao interior da cápsula, pega um papel e uma caneta e escreve

 O vento que atravessa em mim leva a brisa de volta para as entranhas da noite e o mar que habita os grandes vazios dos mundos leva os rios que ali nascem para longe de minhas costas - longe do meu corpo – para longe dos interiores até sobre os nirvanas que se dissolvem em ventos que agora atravessam em mim

 dobra o papel e enfia-o numa cavidade do celular e o envia para quem ligou.

O celular toca e ela abre os olhos e está lá, no mesmo lugar, apenas com o automóvel virado em sentido oposto ao que no anoitecer estivera exatamente ali, naquele ponto da mesma avenida, e o semáforo que naquele período estivera as suas costas agora como uma placa vermelha a sua frente permite que ela atenda a ligação, e a voz que sai do aparelho diz “Oi, tudo bem? Vamos nos encontrar? Fazer algo hoje? Descontrair, sabe...” e ela responde que está bem, mas que não quer sair e nem fazer nada, porque tem feito tantas coisas ultimamente que se sente muito cansada e só quer descansar de toda aquela solidão que todos compartilham. Desliga o telefone e ouve as previsões para o transito e a “hora certa”, e pensa que chegará atrasada enquanto seus olhos saem de foco.

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